Mitologia

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  1. Introdução

É de nosso amplo conhecimento que os povos antigos, principalmente que marcaram de forma intensa a humanidade, como os Gregos, Egípcios, entre outros, possuíam a sua própria mitologia, povoada de deuses com diversas funções diferentes.

Cada mitologia demonstra a forma como cada uma dessas civilizações pensava a respeito de suas origens e também como imaginavam a estrutura fundamental de sua existência.

A Mitologia está muito próxima da Cultura da civilização a qual pertence, revelando assim os processos psíquicos, não apenas da humanidade, mas da civilização a qual pertence.

Conforme Carlos Byington, os mitos nos mostram os caminhos que percorrem a Consciência Coletiva de uma determinada civilização durante a sua formação, e também a delineação do mapa do tesouro cultural através do qual a Consciência Coletiva de um povo pode, a qualquer momento, voltar para realimentar-se e continuar se expandindo.

Conforme Campbell (1990) os mitos nos trazem a percepção das ideias simbólicas e alegóricas e não são histórias literais. Não se apreende o mito via intelecto, pois o mito fala a linguagem da alma.

Eles também não são arquétipos puros, pois os arquétipos não são apreendidos pela consciência. Contudo, eles dão formas aos arquétipos, fornecendo uma roupagem a eles de forma que a consciência possa assimiliar o conteúdo. Os arquétipos não podem ser contatados diretamente pela psique, pois no inconsciente coletivo eles não possuem formas definidas.

Os mitos “transmitem mais do que um mero conceito intelectual, pois, pelo seu caráter interior, eles proporcionam um sentido de participação real na percepção da transcendência”.

Transpondo para o nível individual pode-se afirmar que os mitos nos levam a experiência de nos sentirmos vivos. Traz-nos a sensação de que nossa vida no plano físico tem ressonância com nosso mundo interior, aquele mundo que habita nosso ser mais profundo.

Conforme Campbell (1990):

“Quando a história está em sua mente, você percebe sua relevância para com aquilo que esteja acontecendo em sua vida. Isso dá perspectiva ao que lhe está acontecendo. Com a perda disso, perdemos efetivamente algo, porque não possuímos nada semelhante para pôr no lugar. Esses bocados de informação, provenientes dos tempos antigos, que têm a ver com os temas que sempre deram sustentação à vida humana, que construíram civilizações e enformaram religiões através dos séculos, têm a ver com os profundos problemas interiores, com os profundos mistérios, com os profundos limiares da travessia, e se você não souber o que dizem os sinais ao longo do caminho, terá de produzi-los por sua conta. Mas assim que for apanhado pelo assunto, haverá um tal senso de informação, de uma ou outra dessas tradições, de uma espécie tão profunda, tão rica e vivificadora, que você não quererá abrir mão dele.”

O estudo da Mitologia dos diversos povos nos faz conhecer um pouco melhor os processos psíquicos do inconsciente coletivo. Em termos individuais a Mitologia fornece uma base para o estudo dos sonhos, pois ambos são expressões da atividade inconsciente.

A Mitologia então fornece um material comparativo, fornecendo analogias para os processos que se distinguem da vida cotidiana e que ocorrem em nossos sonhos, em sincronicidades e em fantasias.

Portanto com o conhecimento da Mitologia, o analista consegue auxiliar o paciente a encontrar uma resposta ao que, de outro modo, poderia parecer um indecifrável enigma.

Nossa sociedade Ocidental é intensamente afetada pela Mitologia Grega, que com seu panteão aponta para o caminho de desenvolvimento do individuo no ocidente. Além disso, o brasileiro é fortemente afetado em seu inconsciente pelos mitos indígenas e africanos, que povoam nosso imaginário de forma marcante.

Conhecer e buscar o significado desses mitos que dão base a nossa sociedade nos auxilia em nossa jornada enquanto Ocidentais e brasileiros. E de forma individual cada imagem arquetípica se associa a vivências, dons e determinados problemas associados aos deuses mitológicos.

Quando nos identificamos e reconhecemos esses dinamismos atuando em nós, diminui nossa presunção de sermos o centro e alcançamos um significado que emerge das profundezas de nossa alma, nos auxiliando em nossas escolhas de forma mais satisfatória e coerente com a nossa estrutura psíquica. Ou seja, o mito traz o símbolo que une a consciência e o inconsciente, o que traz uma satisfação e um sentido de paz de espírito imenso.

Por esse motivo analisei abaixo alguns dos principais deuses gregos, que povoam nosso imaginário e nossa cultura Ocidental.

Zeus

Zeus é a divindade suprema dos gregos. Seu nome significa: “o deus luminoso do céu”.

Pai da maioria dos deuses, era o grande regente do Olimpo a quem todos os deuses respeitavam. Senhor dos raios e de tudo que se refere à atmosfera. Seu representante romano é Júpiter e eu representante africano é Xangô.

Zeus é filho de Cronos e Réia, sendo o filho mais novo de seus irmãos. É comumente retratado como marido da deusa Hera, tendo como ela incontáveis desavenças devido as suas traições.

Devido as suas inúmeras aventuras eróticas foi pai de vários deuses como: Ares, Hermes, Dioniso, Apolo, Artemis, Atena e Perséfone. Foi também pai de vários heróis e semideuses como: Heracles, Perseu, Helena, Minos e também das Musas.

Para compreendermos o mito e o arquétipo de Zeus é importante compreendermos seu pai Cronos.

Cronos teve seis filhos com Reia: Héstia, Demeter, Hera, Hades, Posseidon e Zeus, mas temendo ser destronado por um de seus filhos, assim como seu pai Urano foi, passou a engoli-los. E infelizmente se converte em tirano ainda pior que seu pai.

Quando Zeus estava prestes a nascer, sua mãe Reia procurou Gaia e concebeu um plano para salvá-lo, para que Cronos fosse punido por suas ações contra Urano e seus próprios filhos. Reia deu à luz a Zeus na ilha de Creta, e entregou a Cronos uma pedra enrolada em roupas de bebê, que ele prontamente engoliu.

Zeus foi escondido por Gaia nas profundezas de um antro inacessível, nos flancos do monte Egéon. Lá ele foi amamentado pela cabra Amaltéia, que ao morrer foi transformada em uma constelação por Zeus.

Atingida a idade adulta, Zeus tendo-se aconselhado com Métis, a Prudência, que lhe deu uma droga à qual levou Cronos a vomitar os filhos que havia engolido. Apoiando-se nos irmãos e irmãs, devolvidos à luz, Zeus, para se apossar do governo do mundo, iniciou um duro combate contra o pai e seus tios, os Titãs.

De acordo com esse mito vemos que o deus dos raios e dos trovões se preparou iniciaticamente para assumir o governo do mundo. Pois conforme Brandão (1986):

“Zeus veio ao mundo na matriarcal ilha de Creta e, de imediato, foi levado por Géia para um antro profundo e inacessível. Trata-se, claro está, em primeiro lugar, de uma encenação mítico-ritual cretense, centrada no Menino divino, que se torna filho e amante de uma Grande Deusa. Depois, seu esconderijo temporário numa gruta e o culto minóico de Zeus Idaîos, celebrado numa caverna do monte Ida, têm características muito nítidas de uma iniciação nos Mistérios.”

Sabemos pelos mitos e contos de fadas que o rei é um representante direto do Self, um princípio divino na consciência coletiva e que deve ser renovado constantemente. Isso ocorre quando as qualidades positivas da consciência, como a continuidade, perdem o contato com a corrente irracional da vida e tendem a tornar-se mecânicas. Por essa razão pode-se dizer que esse símbolo tem necessidade de renovação constante, de compreensão e contato, pois, de outro modo, corre o perigo de se tornar uma fórmula morta — um sistema e uma doutrina esvaziados de seu significado e tornar-se uma fórmula puramente exterior (Von Franz, 2005).

Cronos e Urano eram pais devoradores e castradores. Tudo o que simbolizava nova vida era por eles removido. Cronos como filho não conseguiu se livrar dessa maldição familiar e perpetuou-a em sua atitude.

Zeus então representa uma renovação na ideia e concepção da paternidade. Ele quebra uma maldição e acaba sendo o representante de ideais espirituais mais elevados.

Após a batalha contra os Titãs, Zeus dividiu o mundo com seus irmãos mais velhos: Zeus ficou com o céu e o ar, Posseidon com as águas e Hades com o mundo dos mortos (o mundo inferior). A antiga Terra, Gaia, não podia ser dividida, e, portanto ficou para os três, de acordo com suas habilidades – o que explica porque Posseidon era o “sacudidor da terra” (o deus dos terremotos), e Hades ficava com os humanos que morreram.

É digno de nota que Zeus não dividiu nada com suas irmãs mulheres e ainda se apossa da Terra, Gaia, simbolizando o início do patriarcado com suas leis, normas e princípios espirituais. Tanto que Hera sua esposa, que antes era uma Grande Mãe não possuía o mesmo poder que o marido, sendo renegada a função de esposa.

Suas inúmeras conquistas amorosas mostram que Zeus era um deus da fertilidade, fruto de sua iniciação dentro do interior da Terra.

Além disso, ele é o deus dos fenômenos atmosféricos, o qual é responsável por derramar as chuvas, por isso que dele depende a fecundidade da terra. Essas uniões de Zeus refletem claramente a união de um deus dos fenômenos celestes, com divindades telúricas, da Terra. Simbolizando a união do racional com o irracional, caos e ordem, consciente e inconsciente.

Podemos afirmar então que Zeus é o arquétipo do chefe de família patriarcal. Representando a luz da consciência, enquanto deus do relâmpago, e do espírito e da inteligência racional

Ele simboliza a cólera celeste, a punição, o castigo caso a autoridade seja ultrajada. É a fonte de justiça, da lei e das normas.

Mas como todo arquétipo, esse também possui seu lado sombrio. O temor de que sua autocracia, sua dignidade e seus direitos não fossem devidamente acatados e respeitados tornaram Zeus extremamente sensível e sujeito a explosões coléricas, não raro calculadas (Brandão, 1986).

Portanto esse arquétipo simboliza também o sentimento de inferioridade intelectual e moral que pode transforma o individuo em um ser autoritário e hipócrita. Mas também simboliza nossas aspirações mais elevadas, nosso código de ética interno, nossa autoridade interna e nossa capacidade de criação de nova vida.

Hera

Hera é a grande deusa da Mitologia Grega. A rainha dos deuses é irmã e esposa de Zeus. Em Roma é conhecida como Juno. Preside o casamento e a fidelidade conjugal.

O nome Hera significaria a Protetora, a Guardiã. É uma deusa solene, e comumente retratada com o pólos (uma coroa usada por várias deusas).

Sua ave favorita é o pavão por possuir muitos olhos como os quais podem vigiar o esposo. O lírio, símbolo da pureza e a romã, símbolo da fecundidade também lhe eram consagrados.

A vaca também lhe está associada, sendo um símbolo da Grande Mãe, mas no caso de Hera, daquela que derrama o leite dos céus, da via-láctea.

Junto com Zeus, ela exerce uma ação poderosa sobre os fenômenos celestes. Hera pode desencadear tempestades e comandar os astros que adornam a abóbada celeste. O casal celeste controla o sol e a chuva que promovem a fecundação da terra.

Hera é uma deusa cretense, sendo uma transposição da grande Mãe. Como grande Mãe teve um culto especial na Lacônia, Arcádia e Beócia em seu aspecto de fecundidade. Mas posteriormente ela foi convertida em deusa do casamento.

Geralmente retratada como ciumenta, agressiva e vingativa. Vive se vingando das traições do marido, perseguindo as amantes e os filhos do adultério. Uma de suas vitimas foi Heracles (Hercules) a qual impôs os célebres 12 trabalhos.

Conforme Brandão (1986), Hera é a esposa rabugenta de Zeus. A deusa que nunca sorriu! Penetrando nos desígnios do marido, vive a fazer-lhe exigências e irrita-se profundamente quando não atendida com presteza. Para ela os fins sempre justificam os meios. Para atingi-los usa de todos os estratagemas a seu alcance: alia-se a outros deuses, bajula, ameaça, mente.

Mas apesar da mitologia grega enfatizar a humilhação e a índole vingativa de Hera, ela era por contraste grandemente honrada e venerada.

A despeito da infidelidade de Zeus, a relação dos dois nunca foi muito normal. A raiva e a vingança pontuam sua relação em outros aspectos, mostrando que elas se originam de outro motivo.

Certa vez, como narra o mito de Narciso, Hera discutia com o marido para saber quem conseguia usufruir de maior prazer no amor, se o homem ou a mulher. Como não conseguissem chegar a uma conclusão, porque Zeus dizia ser a mulher a favorecida, enquanto Hera achava que era o homem, resolveram consultar Tirésias, que tivera sucessivamente a experiência dos dois sexos. Este respondeu que o prazer da mulher estava na proporção de dez para um relativamente ao do homem. Furiosa com a verdade, Hera prontamente o cegou (Brandão, 1986).

Dificilmente podemos citar uma história mítica onde Hera não tenha uma participação mais ou menos importante.

Podemos citar como seus principais mitos:

  • Seu casamento com Zeus: e a sedução feita pelo deus sob a forma de um pássaro cuco;
  • O nascimento de Hefesto: que ela teria gerado sozinha e lançado do céu, porque ele era aleijado;
  • Sua perseguição aos consortes de Zeus: especialmente Leto, Semele e Alkmene;
  • Sua perseguição aos filhos bastardos de Zeus, como Herácles;
  • A punição de Ixion que foi acorrentado a uma roda de fogo por tentar violar a deusa;
  • A assistência aos Argonautas em sua busca pelo velo de ouro, sendo o líder Jasão um de seus heróis favoritos;
  • O julgamento de Paris, no qual ela concorreu com Afrodite e Atena, para o prêmio da maçã de ouro;
  • A Guerra de Tróia, em que ela favoreceu os gregos;

Hera é uma deusa obstinada e com uma disposição a brigas, que às vezes fazia seu próprio marido tremer. Tanto que um dos poucos filhos que ambos tiveram foi Ares, o deus da guerra. Simbolizando os conflitos conjugais do casal, mas também a discórdia e a rixa entre o patriarcado e o matriarcado que havia perdido a sua força.

Essa disposição para a briga já fez com que Zeus batesse varias vezes nela. Hera geralmente cede diante da raiva do marido, mas recorre à astúcia e intrigas para atingir seus objetivos.

Hera é a deusa que apresenta qualidades e defeitos de forma mais marcante em todo panteão grego.

Ela se consolidou como deusa do casamento na época em que as regras, normas e leis do patriarcado entravam em vigência e nesse caso eles necessitavam de um representante da monogamia. O que é muito estranho para uma deusa representante da Grande Mãe ser eleita de forma a simbolizar uma lei, já que o matriarcado é justamente pontuado pela falta de regras e pela sensualidade e fecundidade.

Hera pode ser considerada uma deusa ferida, em sua feminilidade. Pois como uma poderosa deusa da fecundidade e que precedeu Zeus em veneração, ela assume um papel secundário que lhe foi dado a lado do marido com o advento do patriarcado. Zeus é o macho fecundador e ela apenas a sua consorte. Seus aspectos de fecundidade foram relegados suprimidos.

Como vimos na discussão da sexualidade masculina e feminina entre o casal celeste, Hera passou assumir um requisito patriarcal para organização da instituição familiar, a fidelidade. Enquanto que Zeus, inquestionavelmente pai e soberano dos deuses é uma expressão exuberante do fertilizador, que é a característica essencial da sensualidade matriarcal (Byington).

Entretanto ela ainda carrega consigo traços matriarcais, como o famoso “olho por olho, dente por dente”. E enquanto feminino desprezado e humilhado ela então passa a perseguir e se vingar justamente das mulheres isentado seu esposo do adultério. É como se ela quisesse dizer: “Já que sou humilhada você também será!”. No plano pessoal vemos Hera em muitas mulheres que em nome da instituição do casamento suporta agressões e infidelidade. Anulando seus desejos em prol da imagem de esposa perfeita.

O arquétipo de Hera proporciona capacidade de estabelecer elo, de ser leal e fiel, de suportar e passar pelas dificuldades com companheiro (Bolen, xx). Em termos psicológicos ela simboliza um amadurecimento da psique onde homens e mulheres assumem um compromisso de lealdade com seus processos psíquicos e suportam as provações em nome de algo maior, que não se sabe explicar nem nomear. Esse compromisso pode ser projetado no outro, entretanto, é um compromisso consigo mesmo.

O casamento é uma forma de se chegar à totalidade e iniciar o processo de individuação e Hera representa a fidelidade ao inconsciente e ao próprio processo de individuação. Seu amor é um amor amadurecido, em oposição ao amor erótico e passional de Afrodite, e por isso Hera tinha nessa deusa sua maior rival.

Ela representa o amor onde a fase da paixão acaba e as projeções começam a serem retiradas e passamos a ver o cônjuge como ele é, sem os idealismos do animus ou da anima.

E nesse momento, em que vemos o outro como ele é, podemos nos sentir traídos, pois aquele homem ou mulher com quem nos casamos não é mais o mesmo. Na verdade vemos a pessoa sem as máscaras e nossas ilusões caem trazendo uma carga de sofrimento. Mas é nessa hora que a personalidade pode dar um salto de desenvolvimento com a assimilação das qualidades que projetávamos em outro.

O arquétipo de Hera é poderosíssimo e extremamente realizador. É um símbolo da coniunctio, operação alquímica onde ocorre o casamento sagrado com nossa contraparte interior (animus ou anima). Entretanto é um dos mais destrutivos em seu aspecto negativo. Por essa razão, Hera era adorada e ao mesmo tempo desprezada.

Hera e Zeus formam um par de opostos em nossa psique, nossas necessidades de união e compromisso e nossas necessidades de transgressão as normas e fecundidade que gera um processo criativo. Ficar preso demais as regras e leis pode ser estagnador e nocivo, e ficar preso à pura sensualidade não traz desenvolvimento psíquico, nem amadurecimento. Por isso Hera e Zeus representam duas forças colossais com as quais a humanidade tenta se entender a séculos. E a busca do equilíbrio entre elas é algo que demanda muita energia e trabalho.

Quando o arquétipo de Hera é constelado, sabe-se que há uma busca de comprometimento da psique, uma união sagrada ocorrerá em breve, mas que trará também o estigma da traição e da transgressão que poderá gerar frutos se ambas forem compreendidas e reverenciadas.

Atená

Atena, também conhecida como Palas Atena ou como Minerva em Roma, é na mitologia grega, uma das principais divindades de seu panteão e uma dos doze deuses olímpicos.

É a deusa da guerra, da civilização, da sabedoria, da estratégia, das artes, da justiça e da habilidade.

Em seu mito mais famoso ela é filha de Zeus e não conheceu sua mãe, Métis. Atena nasceu da cabeça do pai plenamente armada.

Em Bolen (1990):

“Como relata Hesíodo, Métis foi a primeira esposa real de Zeus, uma divindade do oceano, que ficou conhecida por sua sabedoria. Quando Métis estava grávida de Atenas, Zeus a enganou tornando-a pequenina e a engoliu. Foi profetizado que Métis teria dois filhos muito especiais: um a filha igual a Zeus em coragem e sábia resolução, e um filho, um rapaz de coração totalmente cativante, que se tornaria rei dos deuses e dos homens. Ao engolir Métis, Zeus contrariou o destino e assumiu o controle dos atributos dela como se fossem seus.”

Tão logo saiu da cabeça do pai, soltou um grito de guerra e se engajou ao lado do mesmo na luta contra os Gigantes.

Jamais se casou ou teve amantes, mantendo virgindade eterna. Era imbatível na guerra, nem mesmo seu irmão Ares lhe era páreo. Foi padroeira de várias cidades, mas se tornou mais conhecida como a protetora de Atenas e de toda a Ática. Também protegeu vários heróis e outras figuras míticas, aparecendo em uma grande quantidade de episódios da mitologia.

Como deusa da guerra Atena é a perfeita antítese de Ares, o outro deus encarregado desta atividade. Atena é dotada de profunda sabedoria e conhece todas as artes da estratégia, enquanto que seu irmão carece de bom senso, prima pela ação impulsiva, descontrolada e violenta, e às vezes, no calor do combate, mal sabe distinguir entre aliados e inimigos. Por isso Ares é desprezado por todos os deuses, enquanto que Atena é universalmente respeitada e admirada.

Atena é complexa e cheia de nuances, enquanto guerreira era defensora das cidades, mas também tinha características de Grande Mãe, sendo uma deusa da fertilidade do solo, devido ao fato de estar ligada a Dioniso quando solenemente se levavam a ela ramos de videira carregados de uvas. E também na disputa com Posseidon pelo domínio da Ática e, de Atenas, onde ela fez brotar da terra a oliveira, sendo, por isso, considerada como a inventora do “óleo sagrado da azeitona”.

Mas antes de qualquer coisa, ela é a deusa da inteligência, da razão, do equilíbrio, da sabedoria, da diplomacia e do espírito criativo. Ela submete a guerra ao intelecto, à disciplina e à ordem. Ela equilibra justiça e razão.

Atena é aquela que cria a cultura e a civilização. Ela preside às artes, à literatura e à filosofia, à música e a toda e qualquer atividade do espírito. Ela também preside aos trabalhos femininos da fiação, tecelagem e bordado.

O perfil de Atena, como o de Zeus e o de Apolo, evoluiu consideravelmente, de maneira constante e progressiva, no sentido de uma espiritualização. Ela evoluiu de mãe ctônica a um perfil de mulher inatingível que inspira os homens na luta.

Atena, então se configura como o arquétipo da Anima, enquanto Sofia, ou seja, aquela que inspira o homem. Em sua mitologia esse aspecto inspirador se manifesta nos mitos de Aquiles, Héracles, Perseu e Ulisses. Atena concedeu sua proteção a esses heróis, concedendo a sabedoria do espírito à força bruta, levando a conseqüente transformação da personalidade do herói e à vitória.

Arquétipo, então da inteligência socializada, da espiritualização das emoções, da racionalidade. Não tendo mãe, e nascendo da cabeça de Zeus, Atena representa também o patriarcado, com suas leis e estratégias, isso está evidente quando Atena tomou o partido do patriarcado, dando o voto decisivo a Orestes.

Orestes tinha matado sua mãe Clitemnestra para vingar o assassinato de seu pai Agamêmnon. Apolo falou em defesa de Orestes, alegando que a mãe era apenas a nutridora da semente plantada pelo pai, proclamou o princípio de que o macho predomina sobre a fêmea e citou como prova o nascimento de Atena que não nascera do ventre de uma mulher. O voto dos jurados foi empatado quando Atena deu o voto decisivo.

Atena representa a nossa curiosidade intelectual, nossa necessidade de socialização e realização no mundo. Quando esse arquétipo é ativado sentimos necessidade de instrução, de uma busca de conhecimento mais elevado.

O grande problema de uma identificação unilateral com esse arquétipo está na repressão exacerbada das emoções. Atena repudiava manifestações desenfreadas das emoções, ela era comedida. Entretanto, o não reconhecimento das emoções gera neurose e até somatizações.

O mecanismo de defesa utilizado pelo ego, nesse caso, é o da racionalização. O que faz o individuo se manter longe de qualquer espécie de sofrimento. O individuo começa a ter pouca intensidade emocional, atração erótica, intimidade, paixão ou êxtase.

A mulher que se identifica com esse arquétipo e não se abre a outras possibilidades, focando apenas em seus estudos e carreira pode se tornar intragável. Ela passa a desprezar as outras mulheres e a preferir apenas o contato com os homens, que são vistos como aliados.

A sombra de Atena se apresenta no mito da górgona Medusa. A deusa usava em seu escudo a cabeça da Medusa que foi morta por Perseu, graças a sua ajuda.

A Medusa é um complexo que petrifica, tirando a vitalidade, espontaneidade e qualquer forma de vida do indivíduo. Ela desvitaliza com o seu olhar, transformando a vida em pedra.

As emoções renegadas se tornaram um complexo autônomo inconsciente. Somente quando Atena encara, com a ajuda de Perseu, essas emoções renegadas, ela passa a conhecê-las e a ter controle sobre elas

A cabeça de Medusa colocada no centro de seu escudo é como um espelho da verdade, para combater seus adversários, petrificando-os de horror, ao contemplarem sua própria imagem.

Atena passa então a utilizar as emoções destrutivas ao seu favor, no momento correto, sem reprimi-las no inconsciente.

Portanto, esse arquétipo é que nos permite manter a calma, quando estamos a ponto de explodir em uma situação de forte carga emocional e assim desenvolver boas táticas em meio aos conflitos, e dessa forma enxergarmos com mais clareza situações em que antes ficávamos “cegos”.

Apolo

Apolo nasceu em um dia sete. Sete é, pois, o número de Apolo. Filho de Leto e Zeus e irmão gêmeo de Artemis. Ao nascer ganhou de seu pai Zeus um arco e flecha de ouro e uma lira.

Conhecido pelos romanos também como Apolo ou Febo (brilhante, reluzente).

Apolo é um deus solar, mas Em suas origens, estava indubitavelmente ligado à simbologia lunar. Brandão (1986) cita que no primeiro canto da Ilíada Apolo era um deus vingativo:

“O Senhor Arqueiro, o toxóforo; o que porta um arco de prata, o argirótoxo. Violento e vingativo, o Apolo pós-homérico vai progressivamente reunindo elementos diversos, de origem nórdica, asiática, egéia e sobretudo helênica e, sob este último aspecto, conseguiu suplantar por completo a Hélio, o “Sol” propriamente dito.”

Pelo fato de possuir muitas influencias se tornou um deus complexo, possuindo inúmeras funções. Apolo possui na Mitologia mais de duzentos atributos.

É um deus agrário protetor dos campos com seus rebanhos e pastores. Ele também é o deus da cura, sendo um médico infalível. Representa as expiações relativas aos homicídios, mostrando ser também é um purificador da alma. Incentivava e defendia pessoalmente aqueles cujos atos violentos estivessem de acordo com suas normas, como foi o caso de Orestes, que assassinou a própria mãe Clitemnestra.

Deus do oráculo de Delfos era um fiel interprete da vontade de Zeus. Senhor da poesia, da musica e do canto, era o senhor das Musas.

Mas além de tudo era um deus da luz, vencedor das forças ctônicas (foi ele quem matou a serpente Piton e assumiu o oráculo de Delfos).

Apolo era belo e teve inúmeros amores, mas o Deus da beleza masculina costuma ser um fracasso nessa área. Seus amores geralmente terminam de trágica.

Isso porque Apolo em uma de suas lendas costumava zombar de Eros, pois julgava que o arco e a flecha eram atributos seus, e que certamente considerava que as flechas do filho de Afrodite não passavam de brincadeira. Acontece que Eros possuía na aljava a flecha que inspira amor e a que provoca aversão. Para se vingar do filho de Zeus, feriu-lhe o coração com a flecha do amor e a ninfa Dafne com a da repulsa e indiferença. Foi assim que, apesar da beleza de Apolo, a ninfa não lhe correspondeu aos desejos, mas, ao revés, fugiu para as montanhas. O deus a perseguiu e, quando viu que ia ser alcançada por ele, pediu a seu pai Peneu que a metamorfoseasse e ela se transformou em loureiro, a árvore predileta de Apolo.

Em seu templo em Delfos há inscritos seus dois mais famosos preceitos: “Conhece-te a ti mesmo” e “Nada em excesso”.

O louro é a sua planta sagrada e os cisnes são a ele consagrados, como também o corvo, o urubu, a serpente e o lobo.

 

Apolo, juntamente com Hermes, são os filhos preferidos de Zeus, isso significa que os dois deuses se sentem a vontade nos domínios do pai, ou seja, Apolo é um Deus do patriarcado.

Como Deus do patriarcado ele favorece o logos, o pensar antes de sentir e reagir, a objetividade e a racionalidade. Ele é aquele que busca o equilibro entre os desejos no sentido de uma espiritualização deles em prol do desenvolvimento da consciência.

Como arqueiro, Apolo representa aquele que busca atingir um alvo, um centro interior. Como foi dito em Artemis acertar um alvo, ou atingir uma meta requer uma intuição e inteligência instintiva, que não vem da mente racional.

E é justamente por isso que Apolo necessita de Artemis uma deusa matriarcal. Os irmãos mostram que para se atingir um alvo e para iniciar o processo de individuação é necessário que feminino e masculino ajam juntos e que se busque esse equilíbrio entre as duas forças. Ela é a intuição lunar e ele a luz da consciência.

O tema do casal de irmãos é muito comum em mitos e em contos. Temos por exemplo o conto de fadas João e Maria onde os irmãos devem se unir para enfrentar um perigo e resolver uma situação difícil e nebulosa.

O casal de gêmeos geralmente configuram uma contradição não resolvida, um conflito entre os opostos feminino e masculino, mas dessa tensão é que surge a força criadora que soluciona o problema e traz a consciência.

Apolo é um defensor da lei e da ordem, mesmo na música vemos que ele busca o equilíbrio e que as emoções devem ser moderadas. Ele se opõe ao caos do matriarcado. De certa forma a lei e a ordem são importantes para que possamos colocar em ordem nossas emoções caóticas e vermos a situação com mais distancia e esse é o lado positivo desse arquétipo.

O lado sombrio disso se encontra nas características escuras do deus. Apesar de ser um deus puro, higienizador e defensor da moderação, ele apresenta rompantes de vingança que beiram a crueldade.

A sombra desse arquétipo se encontra na distancia emocional, devido a falta Eros, de quem Apolo tanto zombou. E isso causa uma incapacidade de intimidade e arrogância em suas capacidades intelectuais. Apolo gera uma inflação no ego devido a sua ilusória perfeição, o que conseqüentemente leva a rejeição no campo do amor.

Uma forma de amenizar isso se encontra em seu irmão sombrio Dioniso.

Dioniso representa o caos, o desmembramento e os instintos. É um deus com essência feminina, pois foi criado entre as mulheres. Dioniso é um deus da musica também, mas esse faz amor com a música enquanto Apolo busca a técnica e a perfeição.

Apolo deu espaço a Dioniso em Delfos, onde revezava com ele metade do ano. Isso mostra que esse arquétipo pode gerar um aumento de consciência devido a sua capacidade solar, mas deve sempre ser equilibrado pela luz da lua representado por Artemis ou pelos instintos, intensidade emocional e prazer simbolizados por Dioniso.

 

 

Artemis

Artemis ou Artemisia é uma deusa da lua, da caça e da vida selvagem. É filha de Zeus e Leto e irmã gêmea de Apolo. Em Roma recebeu o nome de Diana.

A lenda conta que Leto grávida de Zeus procurou um local tranqüilo para poder dar a luz aos bebês. Devido às ira de Hera, nenhum local a acolheu, pois temiam a retaliação da mulher de Zeus. Foi então que a estéril e flutuante Ilha de Ortígia, que não pertencia à Terra e, portanto, não tendo o que temer da parte de Hera, abrigou a amante de Zeus. Leto, contorcendo-se em dores, esperou nove dias e nove noites pelo nascimento dos gêmeos, pois Hera segurou a deusa dos partos com ela. Leto deu à luz primeiramente a Ártemis e depois, com a ajuda desta, a Apolo. Vendo os sofrimentos por que passara sua mãe, Ártemis jurou jamais casar-se e manteve-se sempre virgem.

Artemis ganhou de seu pai Zeus, um arco e flechas de prata, além de uma lira do mesmo material (seu irmão Apolo ganhou os mesmos presentes, só que de ouro).

Ela tornou-se rainha dos bosques e possuía uma corte de Ninfas, as quais fizeram um juramento de total desapego á figuras masculinas. É representada com túnica curta, pregueada, à maneira das jovens espartanas.

Artemis é uma deusa virgem assim como Héstia e Atena. Mas é indomável, vingativa e feroz. Mas o fato de ser virgem não a impedia de velar também sobre a fecundidade feminina.

O caçador Actéon foi uma de suas vítimas. O jovem caçador em uma noite de estio, nas encostas do monte Citéron e, tendo seguido a Deusa, surpreendeu-a banhando-se nas águas frescas de uma fonte. A deusa atirou-lhe um punhado de água no rosto e Actéon foi metamorfoseado em veado e despedaçado pelos próprios cães, que não o reconheceram (Brandão, 1986).

Ártemis não vivia no Olimpo, seu habitat eram campos e florestas, em meio aos animais que neles habitam. Era protetora das Amazonas, também guerreiras e caçadoras, e independentes do jugo do homem. Era a única juntamente com Dioniso, que sempre foi acompanhada por um cortejo alvoroçado e buliçoso.

Seus animais prediletos eram a corça, o javali, o urso e o cão e, entre as plantas preferidas, estavam o loureiro, o mirto, o cedro e a oliveira.

 

Brandão (1986), afirma que houve, na realidade, duas Ártemis: uma asiática, cruel, bárbara, sanguinária, bem dentro dos padrões da mentalidade religiosa de uma Grande Mãe oriental; outra européia, cretense, ocidental, voltada, como se há de ver em seguida, para a fertilidade do solo e da fecundidade humana.

Para compreender Artemis enquanto imagem arquetípica é necessário compreender a lua, satélite a ela associado.

A Lua está associada ao feminino, regendo o ciclo menstrual da mulher, as marés e a fertilização dos animais e das plantas. Inconstante e mutável, ela é fonte de umidade e de brilho à noite. Sua luz é doce, difusa e terna. Por isso sua associação a mulher.

A cada fase da Lua, os gregos associaram uma deusa. Selene correspondia mais ou menos à Lua Cheia; Ártemis, ao Quarto Crescente; e Hécate ao Quarto Minguante e à Lua Nova, ou seja, à Lua Negra (que também pode ser representada Perséfone).

A Lua revela o principio feminino da vida em três fases. A fase donzela, mãe e anciã. E Artemis revela justamente a fase da donzela, da virgem. Ela é, portanto uma deusa ligada aos processos matriarcais. Tanto que em seu mito ela sempre defende sua mãe, mostrando que simboliza um aspecto do Matriarcado.

Por ser seu habitat as florestas, podemos supor que Artemis rege o inconsciente, as regiões obscuras da mente, nossos aspectos instintivos e primitivos e regiões ainda inexploradas da psique, uma vez que tudo isso simboliza a floresta.

Como Deusa virgem estava imune a relacionamentos, mostrando um aspecto de inteireza, completude, unicidade e integridade. Com o advento do patriarcado, a mulher passou a se sentir na obrigação de se casar, de ter um relacionamento, obrigação esta que não era imposta ao homem. As Deusas virgens nos mostram que a mulher pode escolher não se casar e mesmo assim se sentir autoconfiante e inteira.

Outro símbolo importante a ser falado é o do arco e flecha. O arco e flecha é considerado uma invenção extremamente inteligente, fruto da intuição, que veio para trazer melhorias e mais segurança na hora da caça.

Para utilizá-lo é necessário não apenas ter uma boa pontaria, mas um estado psicológico adequado. Estar irritado antes de uma caçada era sinônimo de errar o alvo. E a Deusa nunca errava um alvo.

Portanto, Artemis simboliza a busca de um centro interior, onde há equilíbrio. Acertar um alvo, ou atingir uma meta requer uma intuição e inteligência instintiva, que não vem da mente racional.

Artemis então nos ensina que durante o processo de individuação, onde a meta é estar consciente e em constante relação com o Self, nosso centro interior, é necessário muita paciência. Não adianta tentar acelerar a conscientização de aspectos obscuros. Isso demanda tempo e espera.

Enquanto irmã gêmea de Apolo podemos fazer algumas abstrações. Na Mitologia Sol e Lua são geralmente retratados com irmãos, ou amantes. A Lua não possui luz própria e reflete a luz do Sol. A Lua símbolo do inconsciente e o Sol símbolo da consciência representam um par de opostos. Representam também os aspectos progressivos e regressivos da psique.

Sobre a questão dos gêmeos Brandão (1986) nos diz:

“Adorados, mas igualmente temidos, os gêmeos estão sempre carregados de um valor intenso: na África ocidental são mágicos, mas entre os bantus eram sacrificados. Em todas as tradições, os gêmeos, deuses ou heróis, lutam entre si, altercam, mas se auxiliam, denunciando, dessa maneira, a ambivalência de sua situação, símbolo da própria situação de cada ser humano dividido em si mesmo, ou seja, a tensão interna de um estado permanente. O medo e a angústia do primitivo diante do aparecimento de gêmeos configuram o temor da visão exterior de sua ambivalência, o receio da objetivação das analogias e das diferenças, a apreensão de uma tomada de consciência individuante, o medo da ruptura da indiferenciação coletiva. No fundo, os gêmeos configuram uma contradição não resolvida.”

Essa contradição representa a nossa luta pela individuação, nossas oposições interiores exteriores. Nossos conflitos com as demandas externas e internas: se devemos atender o coletivo ou atender nossas demandas internas, se devemos seguir os instintos e liberá-los ou usar de moderação e autocontrole.

Mas essa tensão entre opostos é justamente a força criadora da consciência. Esses opostos são gêmeos, ou seja, contem algo do outro em si.

Portanto devemos suportar essa tensão representada pelos gêmeos Artemis e Apolo para que a função criadora, a função transcendente apareça e nos traga a consciência necessária para ampliar nossos horizontes e para que então possa ocorrer a coniunctio, a conjunção dos opostos.

 

 

Ares

Ares na mitologia grega era o deus da guerra, da ação imediata e da força física masculina.

Único filho de Zeus e Hera foi rejeitado pelo pai, uma vez que este não se agradava dos modos agressivos do filho.

É um deus impulsivo, belicoso e extremamente emocional. Em Roma era chamado de Marte, sendo além de Deus da guerra, da agricultura. Todavia, como os romanos eram um povo belicoso, o deus Marte era tido em alta conta, enquanto que os gregos não o respeitavam nem o honravam (com exceção de Esparta).

Atena, sua irmã, também era uma deusa da guerra, entretanto, Atena era de guerra estratégica, enquanto Ares tende mais a violência da guerra, à força bruta e à sede de sangue.

Uma curiosidade em seu mito é que Hera, sua mãe escolheu Príapo para ser tutor de Ares. Príapo treinou o Deus para ser primeiro um perfeito dançarino para depois treiná-lo para ser guerreiro (Bolen, 2005)

Ares teve muitos filhos e consorte, mas seu caso mais conhecido foi com Afrodite. Com ela teve um caso extraconjugal (Afrodite era casada com Hefesto).

Impressionada pelo vigor do jovem guerreiro, Afrodite se entrega aos encantos de Ares. Hefesto, com a ajuda de Hélios (o deus Sol), descobriu o adultério e planejou sua vingança. Em segredo forjou uma rede muito fina, quase invisível, porém muito forte que não podia ser destruída, e pendurou-a sobre o leito.

Quando Ares e Afrodite adormeceram, Hefesto soltou a rede sobre ambos e chamou todos os deuses para testemunhar o adultério.

Os dois tiveram como filhos Deimos (pânico) e Phobos (medo). Tempos depois tiveram uma filha Harmonia (que foi posteriormente mulher de Cadmo, rei de Tebas) estabelecendo uma ligação equilibrada entre o amor e a paixão violenta.

Ares também participou da guerra de Tróia, estando ao lado dos troianos assim Afrodite, Artemis e Apolo.

 

A imagem arquetípica de Ares corresponde à força física, representando os instintos guiados pela vontade que não medem conseqüências. Corresponde também à competição e às reações intensas e apaixonadas (lembrando que ele foi amante da deusa do amor).

Ele está presente todas as vezes que reagimos emocionalmente de forma brutal e intensa. Ele é emoção a flor da pele. Por várias vezes defendeu seus filhos e filhas e os vingou. Sendo, portanto, o arquétipo daquele que entra em uma luta pelos que lhe são caros.

Símbolo da raiva, da ira, da indignação, mas também da coragem para a luta necessária e para a sobrevivência.

Ares simboliza o contato com os sentimentos fortes e com o corpo (vide que ele era um dançarino também), coisas rejeitadas pela razão vigente no patriarcado. Por isso Zeus, símbolo máximo do patriarcado o desprezava. Para os gregos o pensamento e a racionalidade eram de suma importância e reações emocionais não eram vistas com bons olhos.

Ainda hoje um homem que dança é visto de forma pejorativa, mas o interessante é que Ares contradiz essa imagem, pois se trata do Deus mais viril do Olimpo.

Mas as forças instintivas, que fazem com que corpo e emoção ajam juntos não devem ser desprezadas. Ares é o nosso lado espontâneo que gosta de se expressar de forma física.

A dança pode ser uma forma de lidar com essa força interior que age dentro de nós. Basta lembra que nas antigas culturas tribais os guerreiros dançavam antes de entrarem na luta. A dança então pode ser considerada uma forma sublimada da guerra.

Entretanto, como aponta Bolen (2005), o arquétipo de deus grego sedento por sangue evoluiu para o arquétipo de Marte romano. Nessa transição ele se tornou o protetor e defensor da comunidade. Se tornando aquele que luta pela segurança e pelos direitos dos outros. Ou seja, um grande líder.

 

 

Afrodite

Afrodite é a deusa grega do amor, da beleza e da sexualidade. A mais bela e a mais irresistível de todas as deusas gregas.

De acordo com a Teogonia, de Hesíodo, ela nasceu quando Cronos cortou os órgãos genitais de Urano e arremessou-os no mar; da espuma surgida ergueu-se Afrodite.

Conforme Brandão (1986), Afrodite seria uma divindade obviamente importada do Oriente. Uma forma grega da deusa semítica da fecundidade e das águas fertilizantes, Astarté.

“Seu amante divino Adônis nos leva igualmente à Ásia, uma vez que Adônis é mera transposição do babilônico Tammuz, o favorito de Ishtar-Astarté, de que os Gregos modelaram sua Afrodite.”

Em outras fontes, como a Ilíada, Afrodite seria filha de Zeus e Dione, levando o título de Dionéia.

Devido a essa dupla origem da deusa houve uma diferenciação da mesma, estabelecendo dois títulos a ela. A Afrodite Urânia e Pandêmia.

Pandêmia seria a inspiradora dos amores comuns, vulgares, carnais, ou seja, dos desejos incontroláveis, e a Urânia, a inspiradora de um amor etéreo, superior, imaterial, através do qual se atinge o amor supremo.

Afrodite era a deusa responsável por levar deuses e mortais a se apaixonarem. Sendo essas paixões destrutivas ou criadoras de nova vida.

Tem paralelos com a Vênus romana, a Oxum africana, a egípcia Isis e a acadiana Ishtar.

Afrodite teve diversos amantes, tanto deuses como Ares, Dioniso e Hermes, quanto mortais como Anquises. Foi casada apenas uma vez, com o deus Hefesto, o qual ela traia com Ares, o deus da guerra.

A deusa também foi de importância crucial para a lenda de Eros e Psique. E o estopim para o desencadeamento da guerra de Tróia.

Foi descrita, em relatos posteriores, como amante de Adônis e também como sua mãe adotiva. Enéias, Hermafrodito e Priapo também são seus filhos.

Sendo uma deusa tipicamente oriental, nunca se encaixou bem no mito grego: parecia uma estranha no ninho!

Por essa razão é tida como deusa alquímica, diferentemente das outras deusas que podem divididas em dois grupos: as virgens (Artemis, Atena e Héstia) e as vulneráveis (Hera, Deméter e Perséfone). Afrodite, então, é ao mesmo tempo vulnerável (devido ao fato de ter tido relacionamentos) e virgem (pois nunca se deixou ludibriar, nem dominar por ninguém, prezando sua autonomia), e também não é nenhuma delas.

Afrodite, sendo a menos grega dos olímpicos, era anteriormente um símbolo da Grande Mãe. Entretanto, devido a cristianização, foi substituída pela Virgem Maria, passando a figura da “mãe” a ter uma conotação destituída de carne e osso e de sexualidade.

Trata-se, então, de um arquétipo difícil em uma sociedade patriarcal, pois Afrodite simboliza a mulher que escolhe com quem se relacionar, da mulher que conhece e aceita o seu desejo, sua sexualidade e que não se deixa dominar. É a mulher que aceita seu corpo como ele é, e se sente confortável com ele.

Infelizmente, em nossa sociedade atual esse aspecto de Afrodite está desvirtuado. As mulheres se encontram alienadas em relação a seu corpo. A mídia profana a beleza da mulher, impondo um ideal de beleza inacessível, onde as curvas tipicamente femininas são substituídas por corpos esqueléticos, mutilados por silicone e cirurgias plásticas.

Símbolo da intensidade dos relacionamentos, mas não necessariamente da permanência, Afrodite é o arquétipo do amor, da beleza, da atração erótica, da sensualidade, da sexualidade e da vida nova. É a “química” entre os amantes, o desejo irresistível e inexplicável.

Em Afrodite Pandêmia temos o amor carnal, o desejo sexual puro e simples. Visando a satisfação dos desejos e a procriação. Em Afrodite Urânia temos o amor que transforma. Simbolizando a importância das relações no sentido de processo criativo. Arquétipo da intimidade física não apenas no sentido sexual, representando uma necessidade psicológica e espiritual.

Arquétipo, portanto, da paixão por alguém ou algo, gerando um processo criativo na psique, do qual pode emergir algo novo. Amor desligado da beleza do corpo, mas da beleza da alma, levando a criação do legado que cada indivíduo irá deixar no mundo.

 

 

Posseidon

Na mitologia grega, Posídon também conhecido como Possêidon, assumiu o estatuto de deus supremo do mar, assim como Netuno romano.

Possivelmente tem origem etrusca como Nethuns. Também era conhecido como o deus dos terremotos. Os símbolos associados a ele com mais freqüência são o tridente e o golfinho.

A origem de Posídon é cretense, como atesta seu papel no mito do Minotauro. Na civilização minóica era o deus supremo, senhor do raio, atributo de Zeus no panteão grego, daí o acordo da divisão de poderes entre eles, cabendo o mar ao antigo rei dos deuses minóicos.

Um dos filhos de Cronos e Reia, foi regurgitado pelo pai Cronos juntamente com seus irmãos Héstia, Deméter, Hera, Zeus e Hades.

Após Zeus destronar o pai Cronos, houve uma divisão dos reinos entre ele e os irmãos Hades e Posidon. Hades herdou o reino dos mortos, Zeus os céus e Posidon o fundo dos mares. Portanto Posidon tem caráter de rei. Ele reina em seu império líquido, à maneira de um “Zeus marinho”, tendo por cetro e por arma o tridente, que os poetas dizem ser tão terrível quanto o raio .

Tinha como representantes o cavalo e o touro, simbolizando instintos, a sexualidade e a fertilidade, uma vez que todas as investidas sexuais dele geraram filhos. Mas, enquanto os filhos de Zeus eram heróis benfeitores da humanidade, os filhos de Posídon, em sua maioria, eram gigantes terríveis e violentos.

Ele teve vários amores e foi casado com Anfitrite, com quem teve o gigante Tritão, a qual assim como Zeus, a traia constantemente. Entretanto, enquanto Zeus se disfarçava para seduzir suas conquistas, Posidon usava de força e estuprava as deusas e mortais com quem se relacionou.

 

Posídon representa o arquétipo da vingança e do ressentimento (vide sua perseguição de dez anos contra Odisseu). Ele é implacável quando contrariado, onde ele mostra sua face destrutiva e regressiva.

Deus dos mares, dos navegantes e dos maremotos. Pode ser considerado o representante do inconsciente, vasto, misterioso e imprevisível.

Para compreender melhor o caráter do Deus, basta atentar para o mar, seu símbolo. O mar pode simplesmente de uma hora para outra passar de um momento calmo, de tranqüilidade para um momento turbulento como fortes ondas. Basta observar quando ocorrem Tsunamis, que são ondas gigantes causadas por abalos sísmicos submarinos. Elas são imprevisíveis e ocorrem de uma hora para outra.

Posidon é também o arquétipo das fortes emoções, possuindo a capacidade de penetrar no reino do inconsciente onde se localizam os nossos afetos mais profundos e aterrorizantes.

A lenda do Minotauro ilustra bem isso. Após assumir o trono de Creta, Minos passou a combater seus irmãos pelo direito de governar a ilha. Rogou então a Posidon pedindo que lhe enviasse um touro branco como a neve, como um sinal de aprovação ao seu reinado. Uma vez com o touro, Minos deveria sacrificá-lo em homenagem ao deus, porém decidiu mantê-lo devido a sua imensa beleza. Como forma de punir Minos, a deusa Afrodite fez com que Pasífae, mulher de Minos, se apaixonasse perdidamente pelo touro vindo do mar o Touro Cretense. Pasífae pediu então ao artesão Dédalo que lhe construísse uma vaca de madeira na qual ela pudesse se esconder no interior, de modo à copular com o touro branco. O filho deste cruzamento foi o monstruoso Minotauro.

Parsífae cuidou dele durante sua infância, porém eventualmente ele cresceu e se tornou feroz; sendo fruto de uma união não-natural, entre homem e animal selvagem, ele não tinha qualquer fonte natural de alimento, e precisava devorar homens para sobreviver. Minos, após aconselhar-se com o oráculo em Delfos, pediu a Dédalo que lhe construísse um gigantesco labirinto para abrigar a criatura, localizado próximo ao palácio do próprio Minos, em Cnossos. O Monitauro foi posteriormente morto pelo herói Teseu.

Mais uma vez aqui vemos o caráter vingativo e rancoroso do Deus. Entretanto, o que chama a atenção é que Possêidon representa, por meio do touro e do Minotauro a instintividade mais crua e mais escondida no ser humano. Aquela que não ousamos nomear, nem falar e que escondemos em nossos labirintos.

Liz Greene e Juliet Shaman-Burke (2003), dizem que a lâmina A Torre, é representada pelo labirinto do Minotauro e um Posseidon irado destruindo-a. Sobre ela vale a pena destacar o seguinte comentário.

“A Torre partida pelo deus retrata a destruição de antigos padrões. Ela é a única estrutura construída pelo homem presente nos Arcanos Maiores, e exatamente por isso representa as estruturas tanto internas como externas que construímos para servirem de defesa contra a vida e como esconderijo para os aspectos negativos e menos agradáveis de nossa personalidade.

De um modo geral, a Torre é a imagem das fachadas socialmente aceitáveis que adaptamos para esconder nossa fera interior. Ela é a estrutura dos falsos valores ou daqueles já superados, daquela postura diante da vida que não se origina do ser como um todo, mas que vestimos como a roupa de um determinado personagem de uma peça, apenas para impressionar a platéia. A Torre também representa as estruturas que construímos no mundo externo para completar o nosso eu incompleto.”

Ao longo de nossa vida construímos fachadas socialmente aceitas e acabamos por reprimir nossas emoções mais fortes e instintos animalescos. Mas essas emoções e instintos contidos no inconsciente ganham força e podem explodir e se voltar contra nós.

Quando esse arquétipo é ativado em nossa psique, pode trazer a tona afetos reprimidos inundando a consciência e tomando o ego. As emoções, representadas pelo mar de Posseidon podem ser destrutivas, mas também podem trazer a tona sentimentos profundos reprimidos para que possam ser trabalhados à luz da consciência, expandindo nossa visão sobre nós mesmos e nos tornando mais humildes e humanos.

Portanto no reino de Posidon não há somente ódio e fúria, mas existe também, assim como o fundo dos oceanos, uma beleza insondável e uma riqueza desconhecida.

Os símbolos a eles associados: o Tridente, o Cavalo e o Touro mostram sua sexualidade desenfreada e também sua fertilidade. O Tridente é um símbolo fálico triplo que conforme Bolen (2005) indicava a sua função como par da deusa tripla.

Portanto, Posidon precisa fecundar. Ainda segundo Bolen (xxx), Posidon é o marido da terra, sendo a umidade propicia à vida, necessária para que a terra seja fértil.

Mas também se pode observar em Posidon um caráter regressivo ainda preso a mãe. Falta-lhe a objetividade masculina, presentes em outros deuses como Zeus, Hermes e Apolo, para lhe trazer o equilíbrio.

Essa sexualidade indiscriminada é mais comum em homens, mas encontramos algumas mulheres sem nenhum controle de seus apetites. E enquanto a sexualidade está indiscriminada a nova vida gerada se apresentará de forma monstruosa.

Um dos caminhos para a discriminação desse aspecto sexual e fecundador de Posidon está no mito de Medusa.

Posidon estuprou Medusa, no santuário de Atena. Esta puniu a jovem transformando-a em uma Gorgona, cujo olhar petrificava quem ousasse encará-la. Medusa viveu em uma caverna até ser decapitada por Perseu. Após sua morte, dela saiu o cavalo alado Pegasus.

O mito mostra que a libido indiscriminada pode se transformar. O Pégasus é diferente do cavalo comum, ele é símbolo da inteligência, espiritualidade e capacidade criativa.

Além disso, Medusa era uma mortal que foi fecundada por Posidon e dele herdou suas características vingativas e rancorosas.

Portanto, nossos aspectos monstruosos como a vingança, o rancor, o ódio e as emoções descontroladas que por vezes irrompem do inconsciente mais profundo, devem morrer. E devem morrer pelas mãos da lógica e da objetividade, representadas pela espada de Perseu. Não de forma a reprimi-las, mas de forma a passar por um sacrifício. O sacrifício de nossos aspectos infantis e regressivos, aquele nosso lado que não aceita ser contrariado. Somente assim o instinto de Posidon, pode se colocar a serviço da inteligência e da criatividade mais elevada.

 

 

Demeter

Demeter é a deusa grega da vegetação, deusa da terra cultivada, das colheitas e das estações do ano. É conhecida como Ceres em Roma.

Filha de Cronos e Réia, irmã de Zeus, Hades, Posseidon, Héstia e Hera, as origens de seu culto são atestadas em Creta e o santuário de Elêusis data da época micênica (Brandão, 1986).

A planta a ela dedicada é o trigo e juntamente com Dioniso saiu ensinando aos homens a cuidarem da terra e da vegetação.

É retratada como uma mulher de cabelo dourado e vestida com roupão azul, ou, mais comumente na escultura, como figura matronal, sentada.

Teve uma filha, Perséfone, com seu irmão Zeus e esse mito é o centro dos Mistérios Elêusis da qual é um personagem vital.

Com seu irmão Posseidon teve um casal de gêmeos: a menina Despina (“a deusa das sombras invernais”) e Árion. Mas Demeter abandonou a menina ao mascer para procurar Perséfone quando raptada. Despina, que representa o inverno, é o oposto de sua irmã, Perséfone, que representa a primavera e de sua mãe, deusa da agricultura. O filho chamado Árion, era um cavalo de crinas azuis, tinha o poder da fala e de ver o futuro. Foi o cavalo mais rápido de todos os tempos e ajudou muitos heróis bravamente em suas conquistas. Ela também é uma das deusas que tiveram filhos com mortais. Com o herói cretense Jasão teve o deus Pluto. Um fragmento do Catálogo de Mulheres, de Hesíodo, sugere que Deméter teve um outro amante mortal, Eetion, que foi fulminado por um raio de Zeus.

O culto a Deméter era levado muito a sério. A dor pela qual a deusa passou com o rapto de Coré por Hades, com o consentimento do pai Zeus fez com que ela deixasse de dar vida e alimento aos homens. A vegetação deixou de crescer e os alimentos se tornaram escassos.

Coma volta de Perséfone por dois terços do ano a sua companhia, Demeter devolveu os grãos da vida ao homem.

O período em que Perséfone passa com sua mãe corresponde à primavera, onde os grãos brotam, saindo da terra assim como a Perséfone. Ao retornar ao Hades inicia-se o outono, quando os grãos são enterrados, da mesma forma que Perséfone volta ao reino do marido. Durante o inverno, Despina mostra sua ira contra sua mãe Demeter e sua irmã, congelando lagos e destruindo plantações e flores.

Demeter é então uma deusa nutridora, a Terra-Mãe que envia seu filho Pluto (Rico), o deus da riqueza agrária aos homens piedosos. Ela é a mãe do grão, e o grão é Perséfone que fica escondida por certo tempo no interior da Terra para se tornar espiga, ou seja, alimento.

Ela então está ligada as estações do ano e aos ciclos da colheita do trigo e foi ela que ensinou os homens à arte de fabricar pães.

Demeter está indissoluvelmente ligada a sua filha Perséfone, formando com ela uma dupla denominada As Deusas. O mito do rapto de Coré /Perséfone já foi descrito no texto anterior sobre essa deusa, por isso não vou citá-lo novamente.

Um ponto importante na história do sofrimento de Demeter é que ela tentou tornar Demofonte imortal, mas foi impedida pela mãe do menino.

Essa decisão pode ser interpretada como o desejo de ‘adotar’ um filho (que a consolaria da perda de Perséfone) e, ao mesmo tempo, como uma vingança contra Zeus e os Olímpicos, pois Deméter estava transformando um homem em deus. As deusas possuíam esse poder de outorgar a imortalidade aos humanos, e o fogo ou o cozimento do neófito figuravam entre os meios mais reputados.

Isso significa que o homem jamais encontrará a imortalidade física.

 

Enquanto figura arquetípica, a relação de Demeter e sua filha representa a ligação mãe e filha arquetípica presente na estrutura psíquica de toda mulher.

Von Franz (2010), diz que na psicologia da mulher, o arquétipo do Self pode se apresentar sob os traços de uma mulher mais velha, ou então mais jovem (Demeter e Coré).

No processo de individuação a mulher na primeira metade da vida deve recolher as projeções que faz em sua mãe para que se torne individuo. E na segunda metade a mulher deve retirar a projeção que faz em sua filha. E essa ligação não é nada fácil de ser feita, pois se trata de uma ligação muito forte, e a ruptura dessa relação simbiótica é sentida como uma morte (Hades).

Demeter então representa o instinto maternal. Ela não consegue se ver como individuo fora da relação com um filho, por essa razão ela busca um filho substituto em Demofonte.

Como arquétipo materno representa a nutrição e a generosidade. Além de mãe de Perséfone era fornecedora de alimentação (como deusa do cereal) e de alimento espiritual (os mistérios eleusinos) (Bolen, 1990).

Deméter é a grande deusa das alternâncias de vida e de morte, que regularizam não somente o ciclo da vegetação, mas também de toda a existência. Ou seja, sem esses ciclos de vida e morte, não há fertilidade na terra, nem fertilidade psicologia.

O ato de descer ao Hades, realizado por Perséfone, simboliza uma descida ao inconsciente na busca do sentido da vida e da própria personalidade. Um processo iniciatório de morrer e nascer renovado.

O lado sombrio desse arquétipo é o a mãe que impede o crescimento dos filhos. A mãe destruidora. É o arquétipo que impede a independência do filho e o subseqüente desenvolvimento da personalidade. A perda do filho para o mundo é sentido como rejeição.

Toda mãe de certa forma e em variados graus, passam por esse sentimento quando os filhos crescem e saem de casa. É a síndrome do ninho vazio. Por essa razão é importante que a mulher desenvolva atividades criativas fora do âmbito da maternidade.

Esse é, portanto, um arquétipo que auxilia tanto homens e mulheres a nutrirem a si mesmos e aos outros, a serem generosos, a doar atenção e zelo, e a encontrarem satisfação como alguém que zela e provê a subsistência de outro. Ela nos proporciona a segurança interior que nos leva a crescer e prosperar.

É ela quem provê nossa subsistência física e nosso alimento espiritual, fornecendo o significado de nossas vidas por meio de uma iniciação nos mistérios da morte e renascimento.

 

 

Hades

 

Hades é o deus do reino dos mortos. É filho de Cronos e Réia, irmão de Zeus, Posseidon, Deméter, Héstia e Hera e marido de Perséfone. Conhecido em Roma como Plutão.

Após a vitória sobre os Titãs, o Universo foi dividido em três grandes reinos: cabendo a Zeus o Olimpo, a Posseidon os oceanos e a Hades o imenso império localizado no “seio das trevas brumosas”, nas entranhas da Terra, denominado Inferno.

Hades possui um capacete que o torna invisível. Esse capacete, por sinal, muito semelhante ao de Siegfried na mitologia germânica, foi usado por outras divindades como Atena e até por heróis, como Perseu, quando mata a Górgona Medusa.

Seu nome era raramente proferido pelos gregos, que temiam excitar sua cólera, pois era violento e poderoso.

Conforme Brandão (1986) era normalmente invocado por meio de eufemismos, sendo o mais comum Plutão (o “rico”), fazendo alusão não apenas a “seus hóspedes inumeráveis”, mas também às riquezas inexauríveis das entranhas da terra, sendo estas mesmas a fonte profunda de toda produção vegetal.

Hades era geralmente retratado como tranqüilo em sua majestade. Conhecido como Zeus subterrâneo saiu apenas duas vezes, sendo uma delas para raptar Coré e torná-la sua esposa.

Mesmo assim ele possui um caráter cruel, implacável e inflexível, sendo odiado por todos. E esse caráter se mostrava quando algum intruso teimava em não lhe respeitar os domínios. Exemplo disso ocorreu com o audacioso Pirítoo, que, acompanhado de Teseu, penetrou no Hades na louca esperança de raptar Perséfone. Pirítoo foi punido pelo Deus a ficar sentado em uma cadeira, por toda a eternidade.

Lutou ainda contra Héracles, que desceu aos Infernos, para capturar seu cão Cérbero. Foi no decurso deste combate que o herói o feriu no ombro direito com uma flechada. Tão grande era a dor, que o Senhor dos mortos teve que subir ao Olimpo e solicitar os serviços de curandeiro de Apolo, que lhe aplicou sobre o ferimento um bálsamo curativo. Essa foi a segunda e última vez que Hades saiu de seus domínios.

Esse reino dos mortos também leva seu nome Hades e sua localização era em um abismo encravado nas entranhas da Terra, e cuja entrada se situava no Cabo Tênaro (sul do Peloponeso) ou numa caverna existente perto de Cumas, na Magna Graecia (sul da Itália) (Brandão, 1986).

Hades e Perséfone tinham um casamento calmo. Apenas uma vez Hades a traiu, quando se apaixonou pela Minta. Minta (ou Minte), ninfa que habitava o Submundo, mantinha com Hades um relacionamento, interrompido por seu casamento; a ninfa então, procurando recuperar o amante, passou a se vangloriar, dizendo ser mais bonita que sua rival, despertando a fúria em Deméter, mãe de Core. Deméter então puniu a moça presunçosa, fazendo em seu lugar surgir a menta.

A simbologia da união dele com Perséfone mostra o casamento de duas forças da natureza e da vida: a riqueza do subsolo que fornece os minerais necessários para fazer brotar de seu âmago as sementes, simbolizando vida e morte, o nascimento da semente e sua conseqüente morte.

Importante salientar que Hades não é o deus da morte. Esse papel cabe a Tanatos.

Enquanto arquétipo, Hades simboliza a força que impulsiona o crescimento das plantas, o local onde os preciosos metais e pedras são extraídos e o local para onde todos os seres vivos devem voltar.

Ele é o símbolo do inconsciente pessoal e coletivo. Local onde estão os tesouros da alma, nossas potencialidades, ou seja, os elementos que ainda não vieram à luz e que continuam nas sombras. Mas também lá estão nossos demônios interiores, nossos terrores, nosso inferno pessoal, as coisas mortas e reprimidas.

Como inconsciente pessoal podemos encontrar os arquétipos, nossos padrões humanos universais que existem desde o inicio dos tempos e que foram vividos pelas pessoas que já morreram.

Ele é o responsável por fornecer energia aos vegetais para erguerem-se a partir da semente mergulhada na obscuridade do solo, ou seja, é dele quem surge a energia necessária para criarmos algo novo em nossas vidas.

Mas seu caráter implacável não permite que ninguém saia de seu reino, uma vez ali tendo ingressado. Ele reclama de volta aquilo que ele dá. Por isso ele é tão temido. O ego não aceita o seu fim.

Para os gregos a esperança de uma possibilidade de pós-vida se encontrava em sua esposa, Perséfone que representa a vida emergente e a juventude. Ela é a semente que morre e retorna. Psicologicamente isso significa que a vida é feita em ciclos onde alternamos morte e vida. Coisas devem morrer para que o novo renasça. Perséfone e Hades mostram que para termos novas possibilidades e energia para surgir à riqueza interior, algo sempre deve ser sacrificado e morto.

 

 

Perséfone

Coré ou Perséfone é filha de Zeus, o senhor do Olimpo e Deméter, a Senhora da vegetação e da produtividade da terra. Conhecida como Prosérpina pelos romanos. A palavra Coré ou Kore, em grego, significa donzela ou filha. Por isso enquanto Coré a Deusa é a doce virgem.

Seu mito conta que vários deuses como Hermes, Ares, Apolo e Dioniso cortejaram Coré. Sua mãe Deméter, no entanto rejeitou a todos e escondeu a filha longe da companhia dos deuses.

Quando os sinais de sua grande beleza e feminilidade começaram a brilhar, em sua adolescência, Coré chamou a atenção de seu tio Hades que a pediu em casamento. Zeus, sem sequer consultar Deméter, atendeu ao pedido de seu irmão, que, impaciente, emergiu da terra e raptou-a enquanto ela colhia flores com as ninfas, ou segundo os hinos Homéricos, a deusa estava também junto de suas irmãs Atena e Ártemis. Hades levou-a para seus domínios (o mundo dos mortos), desposando-a e fazendo dela sua rainha.

Irritada com Hades e Zeus, decidiu não mais retornar ao Olimpo, permanecendo na terra, abdicando de suas funções divinas, até que lhe devolvessem a filha. Inconsolável, acaba por se descuidar de suas tarefas levando as terras a tornarem-se estéreis e a escassez de alimentos.

Ela então se recusa a ingerir qualquer alimento e começa a definhar. Ninguém sabe lhe contar o que aconteceu com sua filha, mas Deméter depois de muito procurar finalmente descobre através de Hécate e Hélio que a jovem deusa havia sido levada para o mundo dos mortos, e junto com Hermes, vai buscá-la no reino de Hades (ou segundo outras fontes, Zeus ordena que Hades devolva a sua filha). Como, entretanto Perséfone tinha comido uma semente de romã concluiu-se que não havia rejeitado inteiramente Hades. Assim, estabelece-se um acordo, ela passaria metade do ano junto a mãe, quando seria Koré, a eterna adolescente, e o restante com Hades, quando se tornaria a sombria Perséfone.

A papoula e o narciso são as plantas a ela dedicadas. A papoula devido ao fato de ter abrandado a dor de sua mãe na ocasião de seu rapto. E o narciso, pois estava colhendo esta flor quando foi raptada por Hades. A ela também são associadas as serpentes.

 

Em seu mito podemos ver várias imagens arquetípicas importantes. Um deles é a imagem do rapto.

A imagem do rapto representa um ritual de iniciação pertencente a ritos da vegetação.

Normalmente, o rapto se consuma no outono, “quando os trabalhos agrícolas estão terminados”, os celeiros estão cheios e é, portanto, o momento de se pensar e preparar a próxima colheita (Brandão, 1986).

O rapto da noiva também era um costume entre os gregos e romanos onde a noiva sendo levada nos braços do noivo simula uma fuga e começa a gritar, pedindo o auxílio das mulheres que a acompanham. Psicologicamente isso significa que para a mulher o ato do casamento significa a morte. A morte de sua ligação com a mãe e de sua imaturidade enquanto mulher.

Pois para a relação mãe e filha o masculino é visto como violador e seqüestrador.

Outro tema importante é o da heroína ou deusa que cai no sono da morte. Esse é um tema comum em contos de fadas. Heroínas como Branca de Neve e A Bela Adormecida ficaram adormecidas por um tempo devido a maldição de uma bruxa e despertaram por meio de um beijo de amor.

O mito de Perséfone pode fazer o seguinte paralelo com A Bela Adormecida: No conto a maldição do sono tem a duração de cem anos. Durante esse tempo o reino se tornou estéril e uma parede de espinhos cresceu ao redor do castelo. No mito a terra se torna estéril e sem vida, pois Demeter está sofrendo.

A esterilidade da Terra significa psicologicamente que o feminino está dormente, por essa razão não há fertilidade e tudo se tornou árido.

Ou seja, o mito da descida cíclica de Perséfone ao Hades e seu retorno a superfície simboliza as estações do ano e a fertilidade da terra, assim como os mistérios femininos, que inclui a espera pelo tempo certo para que algo amadureça.

Perséfone foi a figura central nos Mistérios de Elêusis, que por dois mil anos antes do cristianismo foi a principal religião dos gregos. Nos Mistérios de Elêusis os gregos experienciavam a volta ou renovação da vida depois da morte através da volta anual de Perséfone do Inferno (Bolen, 1990).

Era um rito centrado na Grande Mãe. Perséfone era uma deusa tipicamente cretense, assim como Hera, ou seja, ela era uma transposição da Grande Mãe, que foi assimilada pelos gregos, recebendo uma mãe grega, mas mantendo seu aspecto de fecundidade. Por essa razão era chamada de Hera infernal.

Perséfone também se liga a Afrodite, sendo que as duas rivalizavam em beleza. Com ela forma um par de opostos: a deusa da morte dos grãos e a deusa da vida dos grãos.

A híbrida Coré-Perséfone nos mostra dois arquétipos distintos em uma mesma divindade: o da jovem-virgem e o da rainha do mundo dos mortos.

Como a jovem Coré esbelta e bonita, está associada com símbolos de fertilidade: a romã, o grão, o milho, e também com o narciso. Como rainha do Inferno, simboliza uma deusa experiente que reina sobre os mortos, guia os vivos que visitam o mundo das trevas, e pede para si o que deseja.

Coré representa a mulher presa a uma mãe dominadora e protetora. A eterna adolescente que não sabe o que quer e se deixa manipular por outras pessoas. Mesmo adulta está sempre voltada a agradar a mãe. Geralmente seu lado masculino é ausente e primitivo. O homem é visto como intruso nessa relação, sendo que somente um rapto, ou seja, uma possessão para ajudá-la a se relacionar com ele e adquirir características como objetividade e foco. Assim como A Bela Adormecida, espera para ser acordada de seu sono.

Já como Perséfone ela representa o aspecto feminino que empreendeu a descida ao inconsciente e ao sofrimento e por isso é capaz de guiar os outros em suas jornadas. Ela alcança um desenvolvimento psicológico e uma autonomia ao entrar em contato com sua subjetividade e não ficar presa a ela.

Perséfone é aquela que é capaz de regredir ao mundo interior quando necessário e de saber quando voltar para as exigências do mundo externo renovada.

Assim como Hera ela também é uma Rainha e ao contrario dela tem um casamento harmonioso com Hades, com raras brigas.

Perséfone é o símbolo da função intuição, mas que amadureceu e mantém um relacionamento com sua contraparte inferior a sensação, representada pelo mundo subterrâneo e seu marido Hades.

Nesse compromisso estabelecido com a função inferior é possível para a intuição materializar suas ideias no mundo exterior.

Para concluir, Perséfone é o arquétipo que nos auxilia em nossa descida a nossa própria profundeza. Ela é um guia, um psicopompo. A mediadora entre a realidade externa e a subjetividade interna. É ela, portanto, quem pode nos auxiliar na compreensão do significado simbólico de nossos próprios sofrimentos.

 

 

 

 

 

Referências Bibliográficas:

BOLEN, J. S. – As Deusas e a Mulher. São Paulo: Paulus, 1990

BOLEN, J. S. Os deuses e o homem: uma nova psicologia da vida e dos amores masculinos. São Paulo: Paulus, 2002.

BRANDÃO, J. S. – Mitologia Grega – vol I. Petrópolis: Vozes 1986.

BRANDÃO, J. S.– Mitologia Grega Vol. 2, Petrópolis: Vozes, 1986

BYINGTON, C.A. – O Sincretismo do Diabo e de Exu e o Arquétipo da Alteridade. Um Estudo da Psicologia Simbólica Junguiana.

CAMPBELL, J. O Poder do Mito. São Paulo: Palas Athena, 1990.

JUNG, C. G. Símbolos da Transformação. Vozes. Petrópolis: 1986.

SHAMAN-BURKE, J. & GREENE, L. – O Tarô Mitológico. 27 edição. São Paulo: Arx. 2003.

VON FRANZ, M. L. A interpretação dos contos de fada. 5 ed. Paulus. São Paulo: 2005.

VON FRANZ, M. L. O feminino nos contos de fada. Vozes. São Paulo: 2010.

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