Contos

Introdução

Durante toda a história da humanidade, o homem, mesmo não tendo consciência disso, procurou manter um relacionamento com o inconsciente coletivo e seus arquétipos.

Entre os povos antigos isso se dava por meio da interpretação dos sonhos e das estórias contadas ao redor de fogueiras.

Os contos de fada, assim como os mitos, as lendas e as fabulas, falam a linguagem da alma. São similares aos nossos sonhos e as nossas fantasias.

Observe qualquer menina quando tem o contato com os contos pela primeira vez. Elas se encantam com as princesas, com as fadas, com as rainhas. Elas vivem aquilo em suas brincadeiras, em sua fantasia.

Marie Louise Von Franz, uma das maiores expoentes no estudo dos contos de fada, diz que os contos são a expressão mais pura e mais simples dos processos psíquicos do inconsciente coletivo, pois eles representam os arquétipos na sua forma mais simples, plena e concisa (Von Franz, 2005).

Quando nos tornamos adultos perdemos esse contato, dando primazia à consciência, e parte desse mundo arquetípico vai para o inconsciente.

Mas retomar a leitura e a compreensão dos contos, pode se tornar um refrigério para a alma. Neles podemos resgatar impulsos, sonhos e instintos perdidos.

Em sua obra A interpretação dos contos de fada, ela distingue os contos dos mitos.

“Nos mitos, lendas ou qualquer outro material mitológico mais elaborado, atingimos as estruturas básicas da psique humana através de uma exposição do material cultural. Mas nos contos de fada existe um material cultural consciente muito menos específico e, conseqüentemente, eles espelham mais claramente as estruturas básicas da psique.”

Portanto, os contos estão em uma camada mais profunda da psique coletiva.

Ainda na mesma obra Von Franz (2005) diz:

“Para mim os contos de fada são como o mar, e as sagas e os mitos são como ondas desse mar; um conto surge como um mito, e depois afunda novamente para ser um conto de fada. Aqui novamente chegamos à mesma conclusão: os contos de fada espelham a estrutura mais simples, mas também a mais básica — o esqueleto — da psique.”

Mas as diferenças são ainda mais visíveis, pois nos contos o herói ou a heroína não agem em nome, ou sob a ação de algum Deus. Aliás, seu mundo não é governado por essas forças, mostrando que os contos estão destituídos do aspecto cultural.

Além disso, nos mitos o herói geralmente é punido por haver desrespeitado alguma lei divina, já nos contos não há essa espécie de moralidade. O herói é impelido à ação por outros motivos, que podem ser até inusitados.

Entretanto Eliade (1972) aponta nem sempre é verdade que o conto indica uma “dessacralização” do mundo mítico, mas está mais para uma camuflagem dos motivos e dos personagens míticos; mostrando que houve uma “degradação do sagrado”.

Os deuses podem ser discernidos nas imagens dos protetores, adversários e companheiros dos heróis. Mesmo camuflados continuam cumprindo sua função.

Os contos apesar de terem se tornado entretenimento para crianças atualmente apresentam um conteúdo que se refere a uma realidade séria: a iniciação, ou seja, a passagem, através de uma morte e ressurreição simbólicas, da ignorância e da imaturidade infantil para a idade espiritual do adulto.

Neles encontramos temas como: provas iniciatórias, descida ao inferno e ascensão ao céu, morte e ressurreição, casamento com a princesa ou príncipe.

 

No trabalho psicoterápico, as imagens dos contos servem para ilustrar situações de vida, nas quais as pessoas passam. Muitos se identificam com determinada situação ou personagem levando a uma compreensão do que deve ser feito no momento.

Os contos possuem a mesma função dos sonhos. Eles podem confirmar, criticar, compensar e até mesmo curar uma atitude consciente, desde que o individuo se abra àquele ensinamento.

Nessas narrativas podemos observar que o inconsciente quer compartilhar conosco uma experiência original, ou seja, uma experiência arquetípica.

Segundo, Von Franz (2005), eles descrevem apenas um fator psíquico desconhecido chamado Self. Mas como ele é extremamente complexo são necessárias milhares de versões para que esse fato se manifeste na consciência e mesmo assim, quando se manifesta ainda não se esgota.

Como o conteúdo dos contos trata de um material tão afastado da nossa consciência, tão primevo, tão comum a humanidade que sua linguagem é muito diferente da qual a consciência está habituada. O que deixa sua interpretação mais difícil.

Por isso, o conto de fada, e seus personagens, sempre mostram um pouco de com cada um de nós, mesmo que não queiramos reconhecer as bruxas, ogros, madrastas e vilões dentro de nós, eles estão ali, nos mostrando nossas sombras, medos e conflitos internos.

Essas estórias, portanto, trazem o mundo dos arquétipos para o nosso dia a dia, trazendo sentido a vida! Mostram-nos como viver o nosso destino, que passamos por momentos felizes, de conflitos, de perdas, mas que se nos abrirmos ao aprendizado desses momentos iremos encontrar o tesouro interno. Aquele que irá enriquecer as nossas vidas e nos encher de significado.

Cada conto de fadas com sua linguagem simbólica possibilita que a psique se manifeste. Fornecendo às energias instintivas uma direção simbólica e um conteúdo cheio de sentido. Sua leitura reaviva conteúdos inconscientes, possibilitando sua integração na consciência, e assim apontando o caminho para a resolução de conflitos.

Infelizmente hoje nossa sociedade está mais focada nas notícias do dia e nos problemas do momento, e nos esquecemos da literatura do espírito. Aquela que fala direto à alma. Perdemos com isso, algo de nossa infância que é a capacidade de nos encantar, de nos surpreender.

Se hoje os contos representam um divertimento ou uma evasão, é apenas para a consciência banalizada do homem moderno; pois na psique profunda, os enredos iniciatórios conservam sua seriedade e continuam a transmitir sua mensagem e a produzir mutações.

Portanto, os contos, assim como os mitos, oferecem um modelo para a vida, um modelo vivificador e encorajador que permanece no inconsciente contendo todas as possibilidades positivas da vida. Por essa razão, conhecer os contos nos ajuda compreender as nossas razões de viver e isso muda toda a nossa disposição de vida, podendo muitas vezes mudar nossa própria condição psicológica (Von Franz, 2005).

Quando a pessoa se identifica com um conto passa a perceber que seu problema não é único e já foi resolvido de diversas formas ao longo da historia da humanidade. Isso diminui a pretensão do ego, torna o individuo mais humilde e aberto as repostas do inconsciente e mesmo que o conto tenha muitos séculos de existência ele terá um efeito estimulante e novo na psique levando o individuo a uma compreensão e entendimento de seu conflito.

Nos capítulos abaixo são analisados alguns contos de fadas clássicos que povoaram e povoam o imaginário humano a séculos.

 

 

 

Branca de Neve

O conto Branca de Neve, na versão dos irmãos Grimm, guarda algumas diferenças das muitas versões que se popularizaram antes e após a compilação feita por eles em seu livro.

No início da história contada pelos Grimm, uma rainha costurava, no inverno, ao lado de uma janela negra como o ébano. Ao lançar o olhar para a neve, picou o dedo com a agulha, e três gotas de sangue pingaram sobre a neve, o que a deixou admirada e a fez pensar que, se tivesse uma filha, gostaria que fosse “alva como a neve, rubra como o sangue e com os cabelos negros como o ébano da janela”.

Não tardou, e a rainha teve uma filha de descrições idênticas ao seu pedido: branca como a neve, com os cabelos negros como o ébano e os lábios vermelhos como o sangue. Mas, tão logo sua filha veio ao mundo, a rainha morreu. O pai deu à filha o nome de Branca de Neve, e logo tornou a casar com uma mulher arrogante, esnobe e vaidosa, possuidora de um espelho mágico que só falava a verdade.

A rainha consultava seu espelho, perguntando quem era a mais bela do mundo, ao que ele sempre respondia: “Senhora Rainha, vós sois a mais bela”. Quando Branca de Neve fez dezessete anos, e um dia a madrasta perguntou: “Quem é a mais bela de todas?”, e o espelho não tardou a dizer: “Você é bela, rainha, isso é verdade, mas Branca de Neve possui mais beleza.”

Cheia de inveja, a Rainha contratou um caçador e ordenou que ele matasse Branca de Neve e lhe trouxesse seu coração como prova, na esperança de voltar a ser a mais bela. O caçador ficou inseguro, mas aceitou o trabalho. Pronto para matar a bela princesa, o caçador desistiu ao ver que ela era a menina mais bela que já havia encontrado, e rapidamente a mandou fugir e se esconder na floresta; para enganar a rainha, entregou a ela o coração de um jovem veado. A rainha assou o coração e o comeu, acreditando ser de Branca de Neve mas, ao consultar o espelho mágico, ele continuou a dizer que Branca de Neve era a mais bela.

Branca de Neve fugiu pela floresta, até encontrar uma casinha e, ao entrar, descobriu que lá moravam sete anões. Como era muito gentil, limpou toda a casa e, cansada pelo esforço que fez, adormeceu na cama dos anões. À noite, ao chegarem, os anões levaram um susto, mas logo se acalmaram ao perceber que era apenas uma bela moça, e que a mesma tinha arrumado toda a casa. Como agradecimento, eles cederam sua casa como esconderijo para Branca de Neve, com a condição de ela continuar deixando-a tão limpa e agradável.

A rainha não tardou a descobrir o esconderijo de Branca de Neve e resolveu matá-la; disfarçada em mascate, foi até a casa dos anõezinhos. Chegando lá, ofereceu um laço de fita a Branca de Neve, que aceitou. A rainha ofereceu ajuda para amarrar o laço em volta da cintura de Branca de Neve e, ao fazê-lo, apertou-o com tanta força que Branca de Neve desmaiou. Quando os anões chegaram e viram Branca de Neve sufocada pelo laço de fita, rapidamente o cortaram e ela voltou a respirar.

A rainha novamente descobriu que Branca de Neve não estava morta, e voltou a se disfarçar, mas desta vez como uma velha senhora que vendia escovas de cabelo, na verdade envenenadas. Ao dar a primeira escovada, Branca de Neve caiu no chão, desmaiada. Quando os anões chegaram e a viram, rapidamente retiraram a escova de seus cabelos e ela acordou.

A rainha, já enlouquecida de fúria, decidiu usar outro método: uma maçã enfeitiçada. Dessa vez, disfarçou-se de fazendeira e ofereceu uma maçã; Branca de Neve ficou em dúvida, mas a Rainha cortou a maçã ao meio e comeu a parte que não estava enfeitiçada, e Branca de Neve aceitou e comeu o outro pedaço, enfeitiçado. A maçã engasgou na garganta de Branca de Neve, que ficou sem ar. Quando os anões chegaram e viram Branca de Neve desacordada, tentaram ajudá-la, mas não sabiam o que causara tudo aquilo, e pensaram que ela estava morta. Por achá-la tão linda, os anões não tiveram coragem de enterrá-la, e a puseram em um caixão de vidro.

Certo dia, um príncipe que andava pelas redondezas avistou o caixão de vidro, e dentro a bela donzela. Ficou tão apaixonado, que perguntou aos anões se podia levá-la para seu castelo, ao que eles aceitaram e os servos do príncipe a colocaram na carruagem. No caminho, a carruagem tropeçou, e o pedaço de maçã que estava na garganta de Branca de Neve saiu, e ela pôde novamente respirar, abriu os olhos e levantou a tampa do caixão.

O príncipe a pediu em casamento, e convidou para a festa a rainha má, que compareceu, morrendo de inveja. Como castigo, ao sair do palácio, acabou tropeçando num par de botas de ferro que estavam aquecidas. As botas fixaram-se na rainha e a obrigaram a dançar; ela dançou e dançou até, finalmente, cair morta.

 

Branca de Neve (em alemão Schneewittchen) é um conto de fadas originário da tradição oral alemã, que foi compilado pelos Irmãos Grimm e publicado entre os anos de 1812 e 1822, num livro com vários outras fábulas, intitulado “Kinder-und Hausmaërchen” (“Contos de Fada para Crianças e Adultos”).

Branca de Neve é um dos contos de fadas mais populares.

Nesse texto pretendo de dar um enfoque diferente. A análise do conto será focada na figura da madrasta a Rainha Má.

A estória de Branca de Neve começa nos apresentando uma princesa que ao nascer perdeu sua mãe, e seu pai então se casa com uma nova mulher. Ao crescer a beleza da menina desperta em na Rainha inveja e motiva sua crueldade, a ponto de ela tentar cometer assassinato.

Os contos de fadas costumam apresentar de forma simbólica sentimentos comuns a toda humanidade. E em Branca de Neve temos um sentimento básico em evidência: A inveja.

A Rainha, madrasta de Branca de Neve, inveja a beleza da menina, pois não se conforma com o envelhecimento e com a perda do posto de mais bela.

Além disso, podemos ver Branca de Neve, o desenvolvimento da psique feminina. Como ela pode evoluir e se desenvolver.

O ego das mulheres até certa idade se estrutura em torno da beleza e sedução. Não entrarei no mérito da questão, nem dizer o que é certo ou errado, mas nosso inconsciente coletivo está pautado nessa estrutura – basta observar que a indústria de cosméticos, moda e tudo aquilo que se liga à beleza é voltada em sua maioria esmagadora para a mulher.

Com o passar dos anos e a conseqüente degradação do corpo, a mulher que se encontra no processo de individuação já deveria estar em contato com outros aspectos da psique, como o animus e o Self. E nesse processo de amadurecimento o centro de sua psique deveria deixar de ser ego e passar a ser o Self e essa identificação com a beleza diminuída.

Mas o que vemos atualmente em nossa sociedade é uma grande quantidade de mulheres, principalmente as ocidentais, onde a perda da juventude e da beleza é algo aterrorizante.

E esse é o drama da Rainha. Ela não possui um relacionamento com o inconsciente, estando completamente identificada com sua persona. Seu animus é quase inexistente, pois o marido é omisso na relação dela com a Branca de Neve, não exercendo a sua função de discernimento e reflexão.

Quantas mulheres atualmente em nossa sociedade, onde a imagem é privilegiada, não “assassinam” a sua própria criação em função de uma atitude unilateral. Elas cometem uma atrocidade com elas mesmas, fazendo da beleza e da juventude seus únicos atributos.

Mas a Rainha tem um caminho para o seu desenvolvimento, projetado em Branca de Neve. Através da princesa e sua jornada, a Rainha pode se desenvolver e sair da unilateralidade.

A Rainha então manda matar Branca de Neve, mas o caçador se compadece, salvando-a do destino trágico.

A figura do caçador que entrega a Rainha o coração de um veado, simboliza a figura do animus que começa a aparecer e a apresentar vestígios de reflexão e de proteção, mesmo sendo considerado apenas um simples servo.

Após esse episódio, Branca de Neve vai viver em uma casa com os sete anões. Onde passa a cuidar da casa para eles, lavando, limpando e cozinhando.

Nesse estágio, a princesa encontra o animus em sua forma múltipla. Ainda indiferenciado, e um tanto primitivo, mas que já apresenta um lado prestativo. E o mais importante Branca de Neve se relaciona com ele, vive com ele e negocia com ele: Ela cuida dos anões em troca de proteção.

A Rainha descobrindo o paradeiro de Branca de Neve tenta por três vezes matá-la. Na primeira vez ela amarra de uma forma violenta, uma fita ao redor da cintura da menina fazendo-a perder o fôlego, da segunda vez da um pente envenenado a menina e na terceira vez ela da à menina a tão famosa maçã envenenada.

Nota-se que as duas primeiras tentativas de matar Branca de Neve estão associadas à vaidade e a terceira à sedução, pois a maçã na mitologia grega está associada a da deusa do amor, da beleza e da sedução, Afrodite. E ela sucumbe a todas as tentativas, sendo auxiliada nas duas primeiras pelos anões e adormecendo na terceira.

Ou seja, Branca de Neve e a Rainha devem amadurecer em relação à beleza e sedução, o que equivale a perder a ingenuidade e desenvolver a capacidade critica provinda de seu animus.

O desfecho é conhecido: um príncipe que andava pelas redondezas avistou o caixão de vidro feito pelos anões, ficando apaixonado. Ele leva o caixão para seu castelo. No caminho, a carruagem tropeça, e o pedaço de maçã que estava na garganta de Branca de Neve sai, e ela volta a respirar. O príncipe a pede em casamento, e convida para a festa a Rainha, que comparece, morrendo de inveja. Como castigo, ao sair do palácio, acabou tropeçando em um par de botas de ferro que estavam aquecidas. As botas fixaram-se na rainha e a obrigaram a dançar; ela dançou e dançou até, finalmente, cair morta.

Infelizmente a Rainha mantém sua atitude unilateral e não é transformada pela jornada da princesa, mantendo a inveja em relação a ela, que agora alcançou um desenvolvimento de sua personalidade e mantém um relacionamento com seu inconsciente, simbolizado pelo seu animus – príncipe. E a Rainha então encontra o destino de uma atitude radicalmente unilateral que é a morte.

 

 

 

Rapunzel

Um casal sem filhos mendigos que queria uma criança, vivia ao lado de um buraco murado que pertencia a uma velha. A esposa, no fim da gravidez, viu uma árvore com suculentos frutos no buraco, e o desejou obsessivamente, ao ponto da morte. Por duas noites, o marido saiu e invadiu o jardim da velha para recolher para a esposa, mas na terceira noite, enquanto escalava a parede para retornar para o buraco, a velha apareceu e acusou-o de furto.

O homem implorou por misericórdia, e a mulher velha concordou em absolvê-lo desde que a criança lhe fosse entregue ao nascer. Desesperado, o homem concordou; uma menina nasceu, e foi entregue à bruxa, que nomeou-a Rapunzel. O nome da planta que o marido roubou.

Quando Rapunzel alcançou doze anos, a bruxa trancou-a numa torre alta, sem portas ou escadas, com apenas um quarto no topo. Quando a bruxa queria subir a torre, mandava que Rapunzel estendesse suas tranças, e ela colocava seu cabelo num gancho de modo que a bruxa pudesse subir por ele.

Um dia, um príncipe que cavalgava no bosque próximo ouviu Rapunzel cantando na torre. Extasiado pela voz, foi procurar a menina, e encontrou a torre, mas nenhuma porta. Foi retornando frequentemente, escutando a menina cantar, e um dia viu uma visita da bruxa, assim aprendendo como subir a torre.

Quando a bruxa foi embora, pediu que Rapunzel soltasse suas tranças e, ao subir, pediu-a em casamento. Rapunzel concordou. Juntos fizeram um plano: o príncipe viria cada noite (assim evitando a bruxa que a visitava pelo dia), e trar-lhe-ia seda, que Rapunzel teceria gradualmente em uma escada. Antes que o plano desse certo, porém, Rapunzel tolamente delatou o príncipe. Rapunzel pergunta inocentemente porque seu vestido estava começando a ficar apertado em torno de sua barriga, revelando tudo para a bruxa (que soube que Rapunzel estava grávida, o que significava que um homem se encontrara com ela). Em edições subseqüentes, Rapunzel perguntou distraidamente por que era tão mais fácil levantar o príncipe do que a bruxa.

Na raiva, a bruxa cortou cabelo de Rapunzel e lançou um feitiço, para que ela vivesse em um deserto. Quando o príncipe chegou naquela noite, a bruxa deixou as tranças caírem para transportá-lo para cima. O príncipe percebeu horrorizado que Rapunzel não estava mais ali; a bruxa disse que nunca mais a veria e empurrou-o até os espinhos de baixo, que o cegaram. Lá Durante meses ele vagueou através das terras infrutíferas do reino, e Rapunzel mais tarde deu à luz duas crianças gémeas. Um dia, ela estava bebendo água e começou a cantar com sua bela voz de sempre. O príncipe ouviu-a e encontrou-se com ela. As lágrimas de Rapunzel curaram a cegueira, e a família foi viver feliz para sempre no reino do príncipe.

 

 

Rapunzel é uma princesa de um conto de fadas Alemão, dos Irmãos Grimm, publicado pela primeira vez em 1812 e compilado no livro Contos para a infância e para o lar. A história dos Irmãos Grimm é uma adaptação do conto de fadas Persinette escrito por Charlotte-Rose de Caumont de La Force e foi publicado originalmente em 1698.

Rapunzel é um conto de fadas dos irmãos Grimm, publicado em 1812.

Conta a estória de uma menina que ficou presa em uma torre sem portas e janelas por uma bruxa. Seu cabelo, nunca cortado cresce como uma imensa trança a qual a bruxa sobe todos os dias para ver a menina. Um dia, um príncipe passando pelo local, ouve Rapunzel cantando, e se apaixona, decidindo fugir com ela. Ao enfrentar a vilã, é castigado com uma cegueira e Rapunzel tem suas tranças cortadas e é expulsa para o deserto. Mas, no final da história, sua visão é recuperada pelas lágrimas da amada, e o casal alcança o esperado final feliz.

A estória do Rapunzel nos mostra como uma mãe possessiva pode enclausurar a filha e transformando-a em seu bem mais precioso. O conto começa com um casal, cuja mãe grávida tem um desejo enorme de comer uma hortaliça que crescia no jardim de uma bruxa vizinha. O pai rouba duas vezes para a mulher insatisfeita, mas a bruxa o flagra e concorda em absolvê-lo desde que a criança lhe fosse entregue ao nascer.

Uma das características mais marcantes no feminino é a insatisfação. E quando a mulher não desenvolve característica do seu animus, como a objetividade, ela se torna como a mãe de Rapunzel, que não avalia o perigo de roubar coisas e esta sempre insatisfeita, sua fome não tem fim.

A mãe e a bruxa são na verdade a mesma pessoa e o pai de Rapunzel é um homem fraco que não consegue dizer não a mulher. Ou seja, o animus da mãe da menina não é desenvolvido. A mãe na verdade despreza o masculino e quer o bebê só para si, o homem é apenas um instrumento para a satisfação de seus desejos e não um companheiro.

Quantas mulheres modernas não fazem isso? Quantas não depositam em seus filhos toda a sua realização e felicidade? Aquele bebê simplesmente não pode crescer e abandoná-la!

Além disso, muitas mulheres, infelizmente, afastam o marido do cuidado do filho, não permitindo a sua participação e julgando-o incapaz.

Mas a bruxa do conto não é uma bruxa comum. Ela não tem inveja da beleza da menina, ela não tem ressentimento nem quer se vingar, pelo contrario, ela é uma mãe extremamente devotada. Boa até demais! E ser uma mãe boa demais aprisiona o filho em uma simbiose.

Rapunzel foi presa em uma torre para que ninguém pudesse vê-la, pois aos 12 anos já estava se tornando atraente ao sexo oposto. Ainda hoje, muitas mães costumam “aprisionar” as filhas com medo da sexualidade delas. O interessante é que ocorre justamente o contrario. No conto original, Rapunzel ficava grávida do príncipe. O conto foi mudado devido a moral da época. Mas isso é extremamente comum, “prender demais” pode ter o mesmo efeito que “soltar demais”.

Mas para se tornar independente, a menina transgride. E toda transgressão recebe uma punição. Nesse caso foi a expulsão do paraíso materno, com a simbologia do corte de cabelo, que pode ser analisado como o corte do cordão umbilical psicológico que prendia mãe e filha.

E Rapunzel vai viver sozinha, no deserto, para amadurecer. No conto original, ela da luz a gêmeos, ou seja, ela passa de filha a mãe.

E só após passar um bom tempo na solidão para que possa desenvolver suas próprias capacidades internas de sobrevivência é que ela pode então se unir ao seu masculino. Pois ela está amadurecida, independente, segura, para receber esse masculino diferente da mãe. Para recebê-lo como seu companheiro de jornada no processo de individuação.

 

 

 

A Bela e a Fera

A Bela e a Fera é um tradicional conto de fadas francês. Originalmente escrito por Gabrielle-Suzanne Barbot, A Dama de Villeneuve, em La Jeune Ameriquaine et les Contes Marins em 1740, tornou-se mais conhecido em sua versão de 1756, por Jeanne-Marie LePrince de Beaumont, que resumiu e modificou a obra de Villeneuve. Adaptada, filmada e encenada inúmeras vezes, o conto apresenta diversas versões que diferem do original e se adaptam a diferentes culturas e momentos sociais.

A versão original de Villeneuve inclui alguns elementos omitidos por Beaumont. Segundo essa versão, a Fera foi um príncipe que ainda jovem perdeu o pai, e sua mãe partiu para uma guerra em defesa do reino. A rainha deixou-o aos cuidados de uma fada malvada, que tentou seduzi-lo enquanto ele crescia; quando ele recusou, ela o transformou em fera.

De forma resumida, o conto “A Bela e a Fera” relata a história da filha mais nova de um rico mercador, que tinha três filhas e três filhos, porém, enquanto as filhas mais velhas gostavam de ostentar luxo, de festas e lindos vestidos, a mais nova, que todos chamavam Bela, era humilde, gentil, e generosa, gostava de leitura e tratava bem as pessoas.

Um dia, o mercador perdeu toda a sua fortuna, com exceção de uma pequena casa distante da cidade. Bela aceitou a situação com dignidade, mas as duas filhas mais velhas não se conformavam em perder a fortuna e os admiradores, e descontavam suas frustrações sobre Bela, que humildemente não reclamava e ajudava seu pai como podia.

Um dia, o mercador recebeu notícias de bons negócios na cidade, e resolveu partir. As filhas mais velhas, esperançosas em enriquecer novamente, encomendaram-lhe vestidos e futilidades, mas Bela, preocupada com o pai, pediu apenas que ele lhe trouxesse uma rosa.

Quando o mercador voltava para casa, foi surpreendido por uma tempestade, e se abrigou em um castelo que avistou no caminho. O castelo era mágico, e o mercador pôde se alimentar e dormir confortavelmente, pois tudo o que precisava lhe era servido como por encanto.

Ao partir, pela manhã, avistou um jardim de rosas e, lembrando do pedido de Bela, colheu uma delas para levar consigo. Foi surpreendido, porém, pelo dono, uma Fera pavorosa, que lhe impôs uma condição para viver: deveria trazer uma de suas filhas para se oferecer em seu lugar.

Ao chegar em casa, Bela, mediante a situação se ofereceu para a Fera, imaginando que ela a devoraria. Mas ao invés de devorar a moça, a Fera foi se mostrando aos poucos como um ser sensível e amável, fazendo todas as suas vontades e tratando-a como uma princesa. Apesar de achá-lo feio e pouco inteligente, Bela se apegou ao monstro que, sensibilizado a pedia constantemente em casamento, pedido que Bela gentilmente recusava.

Um dia, Bela pediu que Fera a deixasse visitar sua família, pedido que a Fera, muito a contragosto, concedeu, com a promessa de Bela retornar em uma semana. O monstro combinou com Bela que, para voltar, bastaria colocar seu anel sobre a mesa, e magicamente retornaria.

Bela visitou alegremente sua família, mas as irmãs, ao vê-la feliz, rica e bem vestida, sentiram inveja, e a envolveram para que sua visita fosse se prolongando, na intenção de Fera ficar aborrecida com sua irmã e devorá-la. Bela foi prorrogando sua volta até ter um sonho em que via Fera morrendo. Arrependida, colocou o anel sobre a mesa e voltou imediatamente, mas encontrou Fera morrendo no jardim, pois ela não se alimentara mais, temendo que Bela não retornasse.

Bela compreendeu que amava a Fera, que não podia mais viver sem ela, e confessou ao monstro sua resolução de aceitar o pedido de casamento. Mal pronunciou essas palavras, a Fera se transformou num lindo príncipe, pois seu amor colocara fim ao encanto que o condenará a viver sob a forma de uma fera até que uma donzela aceitasse se casar com ele. O príncipe casou com Bela e foram felizes para sempre.

 

O conto A Bela e a Fera traz muitos paralelos com o mito grego Eros e Psique.

No mito Psique era uma bela moça que competia em beleza com Afrodite e que também possuía duas irmãs invejosas. Por rivalizar com a Deusa da beleza, Afrodite lhe lança uma maldição, a de não se casar. As irmãs mais velhas de Psique já haviam se casado, e a menina a despeito de sua beleza e da quantidade de adoradores não havia sido pedida em casamento. Seu pai preocupado procura um oráculo que diz que ela desposará um monstro. Ele então a leva ao alto de um rochedo e a deixa à própria sorte. Ela é conduzida pelo vento Zéfiro a um palácio magnífico, onde todos os seus pedidos são atendidos. Mas na verdade, o palácio pertence a Eros, filho de Afrodite, que sem querer se apaixona pela moça.

No mito e no conto, há o tema do pai que entrega a filha a um monstro e também, temos o tema da menina que não tem mãe. Podemos supor então, que se trata de um embate com o animus, pois o animus na mulher se desenvolve a partir da experiência com o pai pessoal (Von Franz, 2010). Além disso, o fato de não ter mãe mostra uma fraqueza e incerteza sobre a feminilidade da heroína, o que a deixa suscetível a dominação pelo animus.

No amadurecimento do amor feminino há o encontro com o animus, mas também com a anima do animus, representada pela sogra: “A mãe, que não quer nora, mas o filho apenas para si, a mãe que o beija “com lábios entreabertos”” (Brandão, 1986). Alguns contos mostram o embate do herói com o animus de sua anima, como no conto O velho Rinkrank, mas aqui o embate é com o feminino por trás do animus.

No conto esse embate é mais sutil, e se encontrar no original na figura da bruxa que tenta seduzir o rapaz e sendo mal sucedida o transforma em fera. Aqui há um caráter regressivo do animus, que está preso a mãe. O fato de ambos serem monstros no mito e no conto (mesmo um sendo príncipe e o outro um deus) denota que essa simbiose com a mãe é destrutiva e animalesca, pois transforma o homem em menino mimado e intragável.

Outro símbolo da mãe e do feminino por trás do homem está na roseira, que a fera tanto preza. A rosa esta associada justamente a Afrodite. Além, disso conforme Jung (2008), a rosa é em geral disposta em quatro raios, o que indica a quadratura do círculo, isto é, a união dos opostos. Ou seja, o amor, é um grande aliado no processo de individuação, pois é a partir do seu roubo que ocorre a transformação de Bela e da consciência coletiva.

O roubo nos atenta a um importante aspecto, conforme Von Franz (2010), uma das atividades do animus negativo é furtar, pois ele precisa tomar a vida onde ele se encontra, matando todo o aspecto feminino da vida.

Além disso, para uma mulher conseguir tirar o homem dos braços regressivos da mãe deve cultivar sua feminilidade. Usar a força bruta e a verborragia do animus não adiantará. Por isso é comum nos mitos e contos a heroína seguir o caminho da individuação sofrendo e fugindo, enquanto que os heróis lutam e vencem monstros.

Ao conviver com a fera, Bela percebe que ele é sensível e realizava todas as suas vontades a despeito de sua aparência. Ela se afeiçoa a ele, que a pede em casamento várias vezes, sendo recusado em todas elas. Assim como Coré se afeiçoa a Hades no mito, e passa a enxergar o masculino de forma menos hostil.

Sobre o tema do casamento nos mitos, Brandão (1986), diz:

“Para o mundo matriarcal, argumenta o psiquiatra israelense, “todo casamento é um rapto de Core, a flor virginal, consumado por Hades, o violador, ou seja, um simbolismo terreno do macho hostil. Desse modo, todo casamento é como uma exposição no cume de um monte em mortal solidão e uma espera pelo monstro masculino a quem a noiva é entregue.”

“Na mais profunda experiência do feminino os temas das núpcias de morte, da virgem sacrificada a um monstro, feiticeiro, dragão ou espírito do mal, recontados em inúmeros mitos e lendas, são igualmente um hieròs gámos. O caráter de rapto, que o evento assume, expressa, relativamente ao feminino, a projeção — típica da fase matriarcal — do elemento hostil sobre o homem.”

O homem no conto é indiferenciado, ou é um ladrão como o pai e furta a feminilidade a matando, ou é uma fera assustadora. E com o pedido de casamento ela terá de enfrentar essa projeção de hostilidade em relação ao masculino, por isso Bela reluta em aceitar.

Mesmo a contragosto a Fera permite que Bela visite sua família, a qual ela sente saudades. Esse retorno ao lar de Bela pode representar uma regressão do ego ao inconsciente original, ao feminino, a mãe. Nessa regressão, Bela confronta projeções reprimidas matriarcais e sombrias suas inconscientes, representadas pelas irmãs.

As irmãs de Bela representam atitudes matriarcais sombrias onde o homem é visto como hostil e violador, e a mulher como esposa-vítima do monstro. A despeito da inveja que elas sentem de Bela, elas trazem um desenvolvimento para a personalidade dela e um amadurecimento muito grande

Mesmo sendo bem tratada Bela vive então em um estado de servidão inconsciente, e é justamente contra isso que a consciência feminina deve protestar. Ela entra em conflito contra a fera, fica em duvida se volta ou não, pois a hostilidade e protesto das irmãs correspondem exatamente ao que se passa no interior da própria Bela.

Contudo é através dessa sombra feminina que Bela alcança autonomia em seu relacionamento, quebrando a simbiose com seu animus. E ao quebrar a sua simbiose e identificação a heroína sente falta do homem, e sincronicamente a Fera morre. O aspecto animal, hostil e assustador se vão e ela pode ver realmente quem é seu marido, e seu lado humano pode se manifestar.

Esse conto então, nos fala que a mulher, em termos coletivos, deve passar pela experiência de ficar presa ao seu animus fera (ou demônio), pois somente essa experiência o transforma em positivo.

A partir dessa vivência, o animus animalesco, se liberta dos braços regressivos da mãe e o feitiço que condenou o príncipe a viver como Fera é quebrado. E com isso então Bela pode realizara coniunctio, ou seja, o casamento sagrado com seu lado masculino, uma vez que sua feminilidade foi fortalecida.

 

 

 

Cinderela

 

Cinderela, um dos contos de fadas mais popular da humanidade, ganhará uma nova versão para o cinema em breve pela Disney. Com sua estréia prevista para 2015, o interesse por esse conto ganha cada vez mais força e apelo entre adultos e crianças.

A versão mais famosa de Cinderela, ou Gata Borralheira, é a do escritor francês Charles Perrault, de 1697, baseada em um conto italiano popular chamado La gatta cenerentola (“A gata borralheira”), com a famosa fada madrinha. Entretanto, a versão mais antiga é originária da China, por volta de 860 a.C. A versão dos irmãos Grimm, também é bastante conhecida, entretanto nela não há a figura da fada-madrinha. E é sobre essa versão, que baseio a análise, uma vez que é mais rica em simbologia

Cinderela é uma princesa que faz muito sucesso entre as meninas, por tratar de temas muito comuns na adolescência, e também devido à superação do sofrimento vivido pela heroína, o que move um apelo emocional imenso a milhares de mulheres ao redor do mundo.

O tema central do conto é a rivalidade fraternal. A rivalidade entre irmãos é um tema bastante conhecido na Mitologia. Podemos citar como exemplo o mito bíblico de Caim e Abel.

A inveja e a rivalidade são sentimentos que toda criança costuma passar, e que não necessariamente são vividos entre irmãos de sangue. Eles podem se manifestar entre primos ou até mesmo entre amigos.

Além disso, de certa forma, podemos afirmar que toda criança, em maior ou menor grau, em determinado momento, se sente preterida pelos pais. Ela passa a sentir que sua mãe é uma madrasta, pois há aquele momento que a criança deixa de ser um bebê e passa a ter algumas obrigações. Ela não tem mais o colo materno quando chora e a mãe parece não ter mais paciência com ela. E é justamente esse lado infantil que faz birra e que ainda quer colo, mas que ainda habita em nós, que precisa ser superado para ocorrer o amadurecimento da personalidade.

Todavia observando o conto Cinderela veremos que a madrasta e as irmãs terríveis foram imprescindíveis para o desenvolvimento e crescimento da heroína. Sem elas, ela ainda estaria vivendo o anseio natural de ser reconhecida como especial, mas sem ser transportada a uma nova realidade superior e transcendente, como ocorre ao final do conto.

O conto se inicia com a morte da mãe da menina, sendo substituída pela madrasta. O pai de Cinderela só aparece no começo do conto e não é nem bom nem mau, é apenas um homem rico e comum. A trama, então, se desenvolve ao redor de personagens femininos, mostrando que a heroína deve trabalhar sua identidade enquanto mulher antes de se unir ao príncipe.

Nos contos de fadas, a morte da mãe simboliza aquele momento critico na vida das crianças, chamado de perda do paraíso, como foi explicado anteriormente.

A boa mãe de Cinderela morre e sobre seu tumulo cresce uma árvore onde pousa uma pomba branca que aconselha a menina. Isso significa que alguma coisa sobrenatural sobrevive à morte da figura materna positiva e a substitui. Sendo uma espécie de fetiche a qual encarna o espírito da mãe.

A identificação com a mãe boa é um sério risco a individuação da mulher. Ela precisa ter um comportamento feminino autentico e não um modelo feminino típico. Dessa forma ela poderá mostrar a sua individualidade e a sua diferença no mundo.

A morte da mãe significa, pois, simbolicamente, que a menina toma consciência de que não pode mais se identificar com ela, ainda que a relação positiva essencial e afetiva permaneça. A morte da mãe é, portanto, o inicio do processo de individuação.

É muito mais difícil para a mulher esse processo de não seguir de um modelo feminino típico padrão. Desde pequena as meninas tendem, muito mais que os meninos, a seguir umas as outras em termos de roupas, penteados, música, comportamento, e isso as leva a se transformarem em um rebanho de ovelhas. Por essa razão chovem revistas femininas “ditando” moda e comportamento.

As que não se seguem a moda e os padrões são postas de lado e ai começa o que hoje se denomina bullying. Entretanto, quem sofre o bullying e é posto de lado tem muito mais chances de entrar na individuação.

Quanto mais inconsciente de sua própria personalidade é a mulher, mais ela tenderá a falar mal das outras e de pregar peças maldosas, pois somente assim ela pode marcar diferença. No conto, a mãe e as irmãs simbolizam a mulher que não conseguiu ser ela mesma enquanto individuo. Não conhecem sua própria personalidade e não desenvolveram nenhum trabalho criativo e pessoal.

Cinderela passa então a lavar, passar e cozinhar para a madrasta e as irmãs, e acaba dormindo entre as cinzas. Cinderela esta se tornando uma personalidade única e por isso incomoda a família, que a vê como uma inimiga. Elas são como um rebanho que percebeu que um de seus membros deseja seguir seu próprio caminho.

Quando alguém empreende uma analise, é comum que a família inteira se agite e se irrite com esse individuo, pois é justamente essa pessoa que está tirando a todos do estado de inércia.

Um dos trabalhos de Cinderela é fazer a triagem de uma grande quantidade de grãos, simbolizando o esforço imenso que a consciência deve fazer para se separar do desejo de seguir seus ancestrais.

As cinzas representam a humilhação e a contrição. A contrição é a forma mais profunda e eficaz de remorso, pois ela cura todos os pecados. Aqui o ego entra em contato com sua sombra, seu lado negativo. Ele é reduzido a pó e percebe que deve ceder a poderes e forças do inconsciente que são muito maiores que ele. Esse momento traz muita humildade.

Cinderela também passa a ter ajuda de animais e da árvore onde sua mãe está enterrada para poder ir ao baile. Isso significa que Cinderela passa a confiar em aspectos do seu inconsciente ligados aos seus instintos e ao legado deixado pela Boa Mãe em sua psique. Mas o fato de se relacionar com figuras da natureza significa que ela ainda não está apta a se relacionar e estabelecer laços, o que é algo que faz parte da natureza do feminino.

Cinderela vai três vezes ao baile, com uma bela carruagem, símbolo da realeza e de algo que a carrega em direção a sua verdadeira vida, mostrando que em breve ela se tornará uma rainha. Entretanto na ultima vez o príncipe, manda que passem piche na escadaria e, quando a moça passa, seu sapato do pé esquerdo fica grudado. O príncipe pega o sapatinho, que é pequenino, gracioso e todo de ouro.

O sapato simboliza liberdade, pois ele que deixa nossos pés confortáveis e aquecidos para podermos nos locomover onde quisermos. Além disso, ele representa a vaidade feminina, uma vez que as mulheres são apaixonadas por sapatos.

O ouro simboliza aquilo que Carl Jung denominou de Self, ou si-mesmo, que representa o centro de nossa personalidade tanto consciente quanto inconsciente e que ordena tudo. Ele é a imagem do potencial mais pleno do individuo, nossa autoridade interna e a posição central do destino de cada um de nós.

Portanto, o sapato, a leva ao encontro com o outro, a união com o lado masculino, que era ausente anteriormente, mas que agora se encontra disponível a auxiliá-la e a tirá-la da realidade conflituosa em que vive. Ele mostra a sedução e a beleza femininas que encantam o homem.

É por essa razão, que o ato de se apaixonar por alguém é sentido como destino, pois provém desse centro interior, o Self.

As irmãs não conseguem calçar os sapatos, chegando ao ponto de se mutilarem seus pés para poder caber no calçado. Isso significa que ninguém pode viver a vida de outro sem mutilar uma parte sua. O Self nos manda sempre aquilo que devemos viver a porção que nos cabe e que é somente nossa.

É comum nas mulheres o mutilar seus corpos para poderem se encaixar em padrões estabelecidos pela sociedade, principalmente quando esse padrão alcançou algum êxito visível. Mas vemos que esses padrões mutilam nossa autoestima e nossa personalidade mais profunda.

Ao final, Cinderela alcança sua redenção e se casa com o príncipe e as irmãs malvadas são punidas tendo seus olhos furados por pombos.

As irmãs estão cegas. Cegas para si mesmas e para quem elas realmente são. Vão passar a vida tentando ser outra pessoa e tentando se encaixar em padrões.

Cinderela se tornar alguém da realeza mostrando que não é mais alguém comum. Ela encontrou a transcendência e sua realidade foi transformada, transmutada. Ela agora pode seguir sua personalidade mais profunda sem se importar com os padrões limitantes da sociedade e de sua família.

 

 

 

Referências Bibliográficas:

 

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JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2008.

__ Mysterium Coniunctionis. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1997..

__ Símbolos da Transformação. Vozes. Petrópolis: 1986.

__ O eu e o inconsciente. 21 ed.Vozes. Petrópolis: 2008.

A Natureza da Psique. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2009.

VON FRANZ, M. L. A interpretação dos contos de fada. 5 ed. Paulus. São Paulo: 2005.

__ O feminino nos contos de fada. Vozes. São Paulo: 2010.

__. A sombra e o mal nos contos de fada. 3 ed. Paulus. São Paulo: 2002.

_ Animus e Anima nos contos de fada. Verus. Campinas: 2010.

_ A individuação nos contos de fadas. 3 ed. Paulus: São Paulo: 1984.

 

 

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