A Coniunctio e os contos de fadas

A alquimia ocupou um papel de grande destaque na vida e na obra de Carl Jung.
Conforme Von Franz (2004):
“O próprio Jung descobriu a alquimia em forma absolutamente empírica. Uma vez me contou que nos sonhos de seus pacientes apareciam com frequência certos motivos que não podia entender, e que um dia, observando velhos textos sobre alquimia, achou uma relação. ”
Jung percebeu então, um paralelismo entre o material alquímico com os sonhos dos seus pacientes e seus respectivos processos de individuação.
Na alquimia a manipulação da prima matéria – que corresponde ao caos inicial – e as correspondentes transformações da matéria correspondem a etapas do processo de individuação.
Para o alquimista a matéria era obscura e sua mente se debruçava sobre e lutava realmente com os problemas da matéria (Jung 1990). Contudo, o alquimista projetava sua própria psique na manipulação da matéria.
“Todo desconhecido e vazio é preenchido com projeções psicológicas; é como se o próprio fundamento psíquico do investigador se espelhasse na obscuridade. O que ele vê ou pensa ver na matéria são principalmente os dados de seu próprio inconsciente nela projetados. ” (Jung, 1990)
A alquimia descreve um processo de transformação e dá inúmeras instruções para a sua realização. A maioria dos autores concorda sobre os principais pontos, desde os primeiros tempos, isto é, desde o começo da era cristã. Quatro estágios são assinalados, caracterizados pelas cores originárias já mencionadas em HERACLITO: melanosis (o enegrecimento), leukosis (embranquecimento), xanthosis (amarelecimento), iosis (enrubescimento). (Jung, 1990)
Porém na maioria das vezes o processo ocorra por meio de três momentos: nigredo, rubedo e albedo.
Dentro dessas etapas há diversas operações alquímicas, que são estágios da Opus alquímica, cuja finalidade é a obtenção da pedra filosofal, ou seja, o tesouro difícil de se alcançar.
Esses momentos alquímicos podem ser produzidos por operações alquímicas diferentes. A nigredo, por exemplo, que é um estado inicial, sempre presente no início como uma qualidade da “prima materia”, do caos ou da “massa confusa”; pode ser produzido pela separação dos elementos (solutio, separatio, divisio, putrefactio). Ou pode ocorrer após a união dos opostos, a coniunctio, seguido pela morte do produto da união (mortificatio, calcinatio, putrefactio) e seu respectivo enegrecimento.
Existem inúmeros estágios de transformações, os mais conhecidos são as seguintes operações: calcinatio, sublimatio, coagulatio, solutio, separatio, mortificatio, putrefatio e coniunctio.
Jung (1990) diz que a “albedo” é, por assim dizer, a aurora; mas só a “rubedo” é o nascer do sol. A “rubedo” sucede então diretamente à “albedo”, mediante a elevação do fogo à sua maior intensidade. O branco e o vermelho – Rainha e Rei – podem então celebrar suas “nuptiae chymicae” (núpcias químicas) nesta fase.
A união do princípio masculino (Rei, solar, vermelho), com o princípio feminino (Rainha, lunar, branca) é a meta da Opus e é realizada através da coniunctio.
Essa operação tem duas fases: a inferior e a superior.
Na inferior ocorre a união ou fusão de substâncias que não se encontram ainda completamente separadas e discriminadas, ou seja, é uma união imperfeita. É sempre seguida pela morte ou mortificatio. (Edinger, 2006)
Por ser imperfeita, o resultado dessa união deverá ser submetido a novos procedimentos. Pois a coniunctio inferior ocorre quando o ego se identifica com os conteúdos do inconsciente como os complexos, a sombra, anima/animus e até mesmo o Self.
Por isso é necessária uma separatio (separação) adicional, pois o ego está contaminado pela identificação com os conteúdos do inconsciente.
Na coniunctio inferior, os elementos contaminados pelo inconsciente se apresentam como uma união incestuosa, que traz rejuvenescimento, mas também morte. Conforme Edinger (2006), estamos no território do complexo de Édipo. O filho – ego imaturo é eclipsado e levado a destruição pelo inconsciente materno. Essa união leva à morte, ou seja, a extinção da consciência e à uma cegueira.
Para se alcançar a coniunctio superior, os complexos parentais precisam ser resolvidos. Somente assim é possível acessar Anima e Animus positivos. Isso se dá pelo relacionamento tanto interno quanto externo e por meio da união com a função inferior.
Essa etapa corresponde ao ponto máximo da Opus e a vemos representada nos contos de fadas pelo casamento ao final da jornada.
Na coniunctio – tanto inferior como superior – o amor é a chave para a integração dos opostos. Para o casamento Divino existir, o amor deve ser sua causa e seu efeito.
Mas acessar essa etapa não é fácil. Trata-se de uma jornada muito dolorosa e que requer coragem moral e firmeza.
Os contos de fadas geralmente culminam no casamento, onde os personagens do herói ou heroína se casam e se tornam rei e rainha. Ou seja, eles saem da posição de filhos para serem regentes, acessando seu valor interno e sua personalidade mais profunda.
A coniuctio representa o casamento sagrado na alquimia (hierósgamos) e se apresenta nos contos com a elevação da figura humana a rei ou rainha. Indicando que os pares de opostos apresentam um caráter que transcende a consciência. Não pertencem a eles a personalidade do “eu”, mas a ultrapassam (Jung, 1997).
Isso significa que a coniuctio representa a transcendência da consciência do ego a um estado de maior amplitude de consciência em direção ao centro, ou Self.
Em Jung (2003):
“(…) A operação alquímica consistia essencialmente numa separação da prima matéria do assim chamado caos, no princípio ativo, isto é, a alma, e no princípio passivo, isto é, o corpo, os quais posteriormente se reunificavam sob a forma personificada da “coniunctio”, do “matrimonium chymicum”; em outras palavras a “coniunctio” era vista como uma alegoria do hierosgamos, a união ritual de Sol e Lua. Dessa união nascia o filius sapientiae, o philosophorum: O Mercurius transformado, considerado como hermafrodita, devido à forma esférica de sua completude.”
A maioria dos contos de fadas possui o duplo casamento, ou dupla união, onde o casal se encontra, se separa, para posteriormente se unirem novamente, chegando enfim, ao final feliz.
Conforme Estés (1994) o casamento representa a procura de um novo status, o desdobramento de uma nova camada da psique.
Podemos ver representada a coniunctio inferior na primeira união, que precisa de uma separação adicional pois ainda estava contaminada por complexos.
Rapunzel, A Bela e a Fera, A Donzela sem mãos são alguns exemplos onde ocorre a dupla união.
Em Rapunzel, a mocinha e o príncipe se relacionam clandestinamente na torre (até ela ficar gravida). O complexo materno de Rapunzel ainda não havia sido superado, sendo necessário uma separatio adicional – com a separação do casal – e uma mortificatio (morte simbólica). O que morre, na história de Rapunzel, é a ligação simbiótica e inconsciente com a mãe.
Após uma longa jornada no deserto, Rapunzel e o príncipe se unem novamente, simbolizando a união dos opostos mais elevada.
No conto A Bela e a Fera, a mocinha vive em um estado de simbiose com o pai, representando um forte complexo paterno que contamina suas relações com o sexo oposto. A Fera é a representação de um animus animalesco, não desenvolvido, contaminado pelo complexo paterno e negligenciado (esquecido no castelo), por isso sua união inicial com ele precisou passar por uma separação adicional e pela morte da Fera, para que a união final fosse superior e para que ela pudesse se relacionar com o homem real.
O casamento é um símbolo recorrente em contos de fadas, e representa o símbolo perfeito para retratar a meta do processo de individuação, a coniuctio superior.
A tão buscada coniunctio oppositorum alquímica, a união dos opostos, a última e mais difícil das operações, representa a união do inconsciente e do consciente, objetivo final do processo de individuação. É algo difícil de ser conquistado, por essa razão, vemos essa jornada de sofrimento retratada nos contos de fadas.
Neumann (2017), apresenta, por meio do mito de Eros e Psique – que possui toda estrutura de um conto de fadas – a representação da forma mais elevada que o símbolo da coniunctio atingiu no Ocidente.Imagem relacionada
Esse mito, na estrutura de conto de fadas, simboliza o caminho da transformação e divinização fora do âmbito cristão, sem revelação e sem igreja, totalmente pagão, embora além do paganismo. É uma significativa deificação de uma psique humana através de um processo de transformação.
O amor transformador de Psiquê por Eros, se situa além dos gêneros. Pois mostra uma nova forma de transformação da alma e de acesso a coniunctio em contraste com a forte ênfase nos valores masculinos da sociedade ocidental.
Nos contos de fadas mais famosos na sociedade Ocidental, a figura feminina aparece com muita força e destaque.
Conforme Boechat (2008):
“O modelo mítico mostra sempre o mitologema do herói que mata o monstro. Este mitologema configura a estruturação da consciência a partir do inconsciente. A morte do monstro simboliza o domínio ou repressão de impulsos instintivos primitivos. Configura-se aqui a oposição instinto-cultura definida por Freud. Entretanto, há mitos de epopéias personificadas por heroínas. Estas normalmente não matam o monstro, mas, ao contrário, casam-se com ele. O conto de fadas A Bela e a Fera ilustra bem esta situação, também configurada no Mito de Eros e Psique. (…). É provável que a heroína, como mulher, personifique uma possibilidade da tão buscada coniunctio oppositorum alquímica, a união dos opostos, a última e mais difícil das operações, pois representa a união do inconsciente e do consciente, objetivo final do processo de individuação. A heroína estrutura a consciência pois perfaz o ato heróico; ao mesmo tempo, seus valores são do inconsciente, pois pertence ao domínio do feminino, da emoção”.
Do ponto de vista feminino, os contos de fadas como A Bela e a Fera, Eros e Psique – entre outros com personagens femininas – simbolizam com o casamento final um self feminino unido a um masculino divino. Assim a psique feminina experimenta em si mesma a forma transcendente do masculino, como Eros. Atingindo a deificação de sua alma e a iluminação, pelo conhecimento e sabedoria do amor.
Do ponto de vista masculino, representa a transformação em amante divino, capaz de se unir ao feminino interno e externo, conhecendo o amor através do conhecimento do amor feminino.
Von Franz (2004) diz:
De modo que já vêem vocês que aqui a coniunctio termina com uma encarnação da Divindade, é Deus que desce dentro do ser humano. Isso é o que expressou Jung ao dizer que o que se vê do ângulo humano como o processo de individuação, visto do ângulo da imagem de Deus é um processo de encarnação.
Os contos de fadas apresentam a simbólica da coniunctio no encontro com anima e animus na forma mais elevada, por meio do amor.
O amor sempre foi o maior dilema da humanidade, bem como o encontro dos opostos e a resolução das diferenças entre eles. Mas é justamente o conflito entre masculino e feminino é que permite o aprofundamento da personalidade em seu processo de individuação.
O grande mistério da coniuctio só pode ser vivenciado na segunda metade da vida, onde as questões do ego e da sua adaptação ao mundo externo já aconteceu. E só pode ser vivenciado em um estado de abertura para um centro que não é mais o ego, pois a coniunctio superior é semelhante a crucificação, onde poucos conseguem chegar e mesmo aqueles que a acessam não devem se vangloriar disso.
A coragem é imprescindível nesse processo delicado, pois toda personalidade vai sofrer uma transformação e morte simbólica. O ego sofrerá uma lesão, pois nesse processo há a possibilidade da consciência ser devorada pelo inconsciente e haver então uma psicose, ou a consciência pode entrar em um mecanismo de defesa, tentando destruir o inconsciente com suas teorias, em um processo de inflação egóica.
No nível exterior, esse perigo se projeta no jogo do amor. Quando duas pessoas se apaixonam e mais aumenta o amor, o lado sombrio de ambos vêm à tona, gerando dúvidas e incertezas. O medo de abrir o coração e de que o outro lhe machuque é o lado perigoso da coniunctio.
É nesse instante, que as pessoas desistem do processo de terapia ou de uma relação. Mas “ser ferido” é necessário para o processo de crescimento
No mito Eros e Psiquê, Psiquê fere Eros com uma gota de óleo que cai do candeeiro, e ele foge. No conto Rapunzel, a moça “inocentemente” denuncia o príncipe para a bruxa, que o derruba da torre, deixando-o cego, e ambos se separam.
A perda do amante, a separação e o ferimento, constituem um enorme sofrimento. A psique não pode ter uma existência no anonimato, ela quer se tornar consciente. É a expulsão do paraíso da insconsciência e o preço que se paga pela busca de consciência e transformação.
Rapunzel é expulsa e passa a viver no deserto, Psiquê e Branca de Neve caem no sono da morte, pois, conforme Von Franz (2004):
“A coniunctio acontece no submundo, acontece na escuridão quando já não há nenhuma luz que brilhe. Quando a gente já não está e a consciência se foi, então algo nasce ou se gera; na depressão mais profunda, na desolação mais profunda, nasce a personalidade nova. Quando a gente está ao fim de suas forças, esse é o momento em que tem lugar a coniunctio, a coincidência dos opostos.”
No entanto, dessa desolação se gera nova vida. Uma terceira coisa nasce da coniunctio. A luz que nasce na escuridão, a criança divina, uma nova possibilidade e realidade. E então, se vão todos os sintomas neuróticos e a enfermidade e a debilidade.
É a experiência que conduz ao Si-mesmo. Por isso, toda vivência amorosa profunda traz em si a experiência do Si-mesmo.
Nos contos de fadas observamos essa experiência de forma muito plena, pois neles encontramos uma atitude mais equilibrada com o feminino.
Para finalizar, o processo da coniunctio acarreta um sofrimento imenso, pois significa nada menos que abandonar uma velha identidade em prol de uma nova. É preciso uma enorme coragem. Mas a aventura vale a pena, porque as recompensas são imensuráveis (Von Franz, 1996).

Referências bibliográficas:
BOA, F; VON FRANZ, M. L. O Caminho dos Sonhos – Marie-Louise von Franz em conversa com Fraser Boa. São Paulo: Cultrix, 1996.
BOECHAT, W. A Mitopoese da Psique- Mito e Individuação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.
EDINGER, E.F. Anatomia da psique: O simbolismo alquímico na psicoterapia. São Paulo, Cultrix: 2006.
ÉSTES, C. P. Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
JUNG, C.G. Mysterium Coniuctionis. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.

Estudos Alquímicos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003.
Psicologia e Alquimia. Petrópolis, RJ: Vozes, 1990.
NEUMANN, E. Amor e Psique – Uma interpretação psicológica do conto de Apuléio. São Paulo, Cultrix: 2017.
VON FRANZ, M, L. Alquimia – Introdução ao simbolismo e a Psicologia. São Paulo, Cultrix: 2004.

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